World Fabi Books











{setembro 2, 2011}   Conto de Dragões

Capítulo 10

Crianças não devem falar com estranhos!

– Bart? – Samantha tremia de frio.

Jamais deveria ter aceitado ir até ali. Seus lábios estavam começando a ressecar e a rachar. Seu rosto estava gélido por causa do ar traiçoeiro e frio que entrava pela janela aberta do carro e ia diretamente para sua cabeça.

Se ele demorasse mais dez minutos, ela daria partida no motor do veículo e sairia dali sozinha, sem se importar com o imprudente do Bart. Eles podiam se amar muito, mas, este amor não justificava abandoná-la ali e ainda ter que aquentar sozinha o frio do carro. Ela preferia que fossem passar a noite no apartamento dela. Lá, pelo menos, era mais quente e seguro.

Ela e Bartolomeu estavam fazendo oito anos de namoro e ele a tinha pedido em casamento. Para comemorar o noivado, eles almoçaram no famoso e belo restaurante Weiner e, para finalizar o dia, ir realizar o jantar no romântico motel de época, o Excalibur.

Assim que haviam entrado e parado na entrada do estacionamento, um homem lindo e loiro batera na janela do motorista, assustando o casal. Bart tinha abaixado o vidro para ver o que o rapaz desejava e acabara sentindo um arrepio percorrer-lhe a espinha.

Será que havia feito o certo ao abrir a janela? Se ele houvesse contado para sua noiva o que havia sentido, com certeza, ela não estaria mais ali, esperando por ele. Samantha estaria longe daquele estacionamento e a policia estaria à caminho.

O loiro de olhos com tons cinzas apenas queria que o ajudassem com as luzes do estacionamento e com o registro da placa do carro. Ele afirmava que era novo ali e ainda não sabia lidar direito com o trabalho.

O rapaz se atrapalhava em seus afazeres, esquecendo de anotar as placas dos veículos que chegavam ali e se confundia no momento de acender as luzes do lugar, para que o motorista pudesse estacionar melhor e corretamente na vaga que ele deveria indicar, se pudesse enxergar algo também.

Para ajudar o loiro, Bart havia saído do carro e pedira para que Samy esperasse ali dentro. Contudo, já fazia mais de meia hora que os dois haviam desaparecido na escuridão do estacionamento e, para piorar a situação, o seu noivo não atendia ao celular, como sempre o fazia. Parecia que Bartolomeu nunca ouvia o celular tocar e nunca o sentia vibrar também. Entretanto, Samantha estava começando a ficar nervosa e gelada.

O que fazer? Descer do carro e ir atrás de Bartolomeu e do lindo homem de olhos acinzentados? Ficar ali, ligar o carro para subir o vidro e esperar por eles? Subir na recepção e perguntar pelos dois? E se o loiro fosse um assassino e Bart já estivesse morto? Deveria sair dali e deixar o noivo imprudente, e supostamente assassinado, para trás? Deveria, realmente, ligar para a polícia? Sâmara não sabia o que fazer… Por ora, ela aguardaria pelos dez minutos e veria o que iria acontecer, e, somente depois, tomaria a decisão necessária.

————————————————————————————

– Mariane, nós chegamos… – Andrey sussurrava gentilmente no ouvido da garota.

Até mesmo a mulher mais cegamente apaixonada por outro, com aquela voz doce e quente, poderia deixar de pensar em seu amado e sonhar, por alguns instantes, com o dono daquela voz tão máscula.

– Hm…? – a luz a estava incomodando.

O que estava acontecendo? Estava sonhando com ele mais uma vez? Aquele sussurro, mesmo dormindo, a fazia arrepiar-se inteira.

Ela amava aquela voz e acreditava que estava realmente sentindo algo pelo dono dela, só não tinha coragem de dizer exatamente o que estava sentido, pois aquilo tudo era novo para ela, nunca havia se apaixonado por alguém tão rápido. Será que amor à primeira vista verdadeiramente existia?

– Acorde Mariane… – sutilmente acariciou-lhe o rosto rosado pelo frio.

O toque dele sobre a pele dela causou um frisson em ambos. Um dragão sentia prazer ao tocar a pele morna de uma humana. E uma humana adormecida, por mais improvável que pudesse ser, conseguia se sentir estranhamente atraída por aquele toque.

– Hã…?

Ela ouvira direito? Aquela voz deliciosa a havia pedido para acordar? A garota ainda não tinha assimilado o fato de que estava dormindo e que aquela voz não parecia um sonho. Mariane, de olhos fechados e sem saber ao certo o que estava acontecendo ali, achava intrigante sentir o corpo aparentemente deitado em algo confortável e quente. Não estava, antes, sentada?

– Se você não acordar, eu vou beijá-la, minha bela adormecida! – Mariane ouviu-o sorrir enquanto falava e resolveu, por instinto, abrir os olhos.

Ela não o fizera por causa da ameaça de ser beijada, não se importaria se ele o fizesse, mas, ela acordara, por impulso, para poder ver aquele típico sorriso maroto que ele parecia sempre dar.

– Onde estou? – olhou ao redor, desviando-se propositalmente dos olhos dele.

Por causa da presença marcante do dragão ao seu lado, ela não se sentia sonolenta, como freqüentemente ocorria logo depois que acordava. No entanto, quanto mais observava o lugar, mais pasma e aturdida se sentia com a surpresa.

– Como viemos parar no meu quarto?

– Eu te trouxe até aqui… – abriu a mão e mostrou a chave da casa pendurada no dedo médio. – Não se preocupe! Eu tranquei o carro e a porta da frente. – sorriu divertido com a expressão atônita dela.

– Porta da frente? Que horas são? – arregalou os olhos e olhou para a porta do quarto fechada e depois para o seu relógio de pulso.

Era quase uma hora da manhã. Sua família deveria estar dormindo, mas a sua mãe tinha um sono muito leve e geralmente acordava quando ela chegava em casa.

– Meus pais! Eles não te viram? E o meu irmão?

– Calma! Ninguém nos viu.

O garoto colocou, calmamente, a chave sobre a cama, ao lado da do carro e da bolsa, e se acomodou melhor em sua posição. O tempo todo em que estivera tentando fazer Mariane acordar e até aquele momento ele havia permanecido agachado ao lado do colchão.

– Nem seus pais, nem seu irmão e, caso você também queira saber, nem suas cadelinhas acordaram. – viu-a suspirar de alivio e sorriu. – Aliás,…

Andrey começou a mexer em uma mecha do cabelo da garota que estava caída para fora do travesseiro. Aquela atitude tão inocente gerava descargas elétricas que percorriam o corpo da garota.

– Você deveriam trocar o aparelho do alarme. – ajeitou a madeixa perto das demais, no topo da almofada de penas de ganso. – Quando fui desligá-lo para entrar e ligá-lo depois, ele não me pediu senha alguma. Em nenhum dos dois momentos, nem para desligar e nem para ligar! – atuou uma fisionomia de desaprovação. – É muito fácil para qualquer um entrar na sua casa e desligá-lo!

– Eu sei… – ela não sabia ao certo o que dizer. – Você não sabe como é prazeroso levar bronca de um dragão. – resolveu brincar um pouco para dar um ar de descontração àquela circunstância inusitada.

– Não é exatamente uma bronca. Mas, se quiser considerar assim, fique à vontade! – sorriu junto com ela, se divertindo. Como aquela garota conseguia tirar sarro da situação, mesmo quando estava perplexa e confusa?

– Quando eu dormi? – piscou os olhos algumas vezes, tentando afastar o atordoamento que ainda sentia.

– Assim que eu virei a primeira curva… – respondeu sem deixar de rir baixo.

Mariane descobriu, naquele momento, que realmente amava os sorrisos marotos e o som das risadas que ele dava. Porém, mesmo sentindo-se bizarra e interiormente feliz com aquele riso baixo que ele havia acabado de dar, ela sentia que alguma coisa estava errada. Se ela havia dormido o caminho todo, como ele tinha chegado até ali sem referência ou guia algum?

– E como você soube chegar em casa sozinho? – sentou-se na cama, sendo observada pelos olhos atentos de Andrey.

Da maneira como os movimentos do garoto eram cautelosos perto dela, Mariane tinha certeza de que ele acreditava que ela fosse desmaiar ou se desequilibrar a qualquer instante. Claro que ela sentia-se um pouco zonza e que geralmente era uma estabanada sem um senso normal de equilíbrio, mas, Mariane não era uma mulher tão frágil e desamparada do jeito que ele pensava que ela o era!

– Eu já sabia o caminho para a sua casa… – olhou para o teto, como se de repente o ventilador se tornasse algo completamente interessante.

Ele tentava não olhar para a cara incrédula de Mariane. Como ele poderia explicar para ela que ele a seguia e observava quase todos os dias, sem deixá-la com uma péssima impressão dele?

– Sabia, como? – puxou o rosto dele para ela. Queria que conversassem olhando um para a cara do outro. – Andrey, você andou me espionando? – seu tom de voz soava descrente e irritado.

– Hum… Um pouco… – confessou fazendo uma cara de receio e temor pela reação dela.

– Um pouco? Até onde você andou me espionando? – balançou a cabeça negativamente. – Não! Esquece! Não me responda, senão vou ficar ainda mais nervosa! – respirou fundo e o encarou embravecida. – Por que fez isso?

– Eu precisava, digamos, conhecer melhor a mulher humana com que eu tenho uma compatibilidade… – continua com a mesma fisionomia de receio e com gestos arredios.

– Então, não era mais fácil ter vindo conversar do que ficar me espionando e jogando comigo? – agora o seu tom de voz não era mais irritado, e sim, enfurecido.

Por mais que os joguinhos houvessem sido interessantes de um certo ponto de vista, Mariane se revoltava só de pensar que serviu como peça em uma brincadeira de alguém, mesmo que esse alguém fosse o senhor deus grego agachado na sua frente.

– Minha família me proibia de chegar perto de você. Eles tinham medo que eu a assustasse e as coisas acabassem se prejudicando para o nosso lado. Eu precisava fazer as coisas escondidas. – se justificou, mudando a  fisionomia para uma expressão infeliz, que lhe atribuía um ar de “pobre coitado”. O intuito era fazê-la sentir dó e não raiva dele.

– E como a sua família acha que eu poderia prejudicar vocês? – cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.

– Você poderia denunciar a nossa existência, sabe… Os humanos poderiam nos ver como ameaças também e tentar nos destruir… Essas coisas…

Ele, propositalmente, omitiu a parte que se referia a guerra. Que ela seria uma peça importante para a batalha e, por isso, precisavam dela ao lado deles. Contudo, Andrey julgou que aquele não era o momento certo de revelar aquilo para Mariane.

– E vocês não são uma ameaça? – perguntou desconfiada.

Ela sabia que eles não poderiam ser uma ameaçar a julgar pelo Andrey, mas, ela suspeitava que ele estava escondendo algo dela. A ultima resposta que o dragão dera, lhe soara incompleta.

O som da voz dele falhara levemente enquanto falava. Tinha alguma coisa ali que estava sendo escondida dela. Entretanto, Mariane resolvera dar continuidade à conversa. Depois ela descobriria o que ele estava omitindo dela.

– Claro que não! – respondeu como se estivesse ofendido com a pergunta.

Porém, ele sabia que Mariane era uma garota prudente no que se referia à pessoas recém conhecidas. E isso seria bom para ela futuramente, caso mais alguém resolvesse se revelar para ela assim como ele o fizera.

– Achei que o meu rostinho lindo, o meu corpo definido e a minha contagiante personalidade a houvessem convencido disso. – brincou com ela enquanto se sentava ao seu lado na cama.

– Você se acha muito, não é? Nem sei como o seu ego cabe aqui dentro do meu quarto. – deu-lhe um empurrão com o ombro e depois pousou a mão no peito, fingindo sufocamento. – Acho que é por isso que estou zonza. O seu ego deve estar ocupando o lugar do oxigênio. Devo estar sufocando por causa dele!

– Sei, sei… – riu da encenação dela. – Sua fingida! – começou a cutucá-la. – Até parece que você não se derreteu toda por mim.

– Mas, é claro que não! – riu em deboche. – Já vi melhores!

– Agora você me ofendeu garota! – cruzou os braços em um gesto aborrecido. – Você me colocou no mesmo patamar dos meros garotos humanos que você conhece…

– Não… – sorriu espirituosa. – Eu o coloquei no mesmo patamar dos demais dragões que conheço.

– Até parece… – a encarou com o canto dos olhos. – E quantos dragões a senhorita pensa que conhece? Nenhum!

Mariane o encarou com um olhar misterioso e ao mesmo tempo intrigante para Andrey. Ela movimentou os lábios, sem emitir som algum, e pronunciou a palavra “bingo”. Levantou-se da cama e sorriu brincalhona para o dragão. Era exatamente o que ele havia entendido. Ela não conhecia mais nenhum dragão além dele, portanto, não poderia haver melhores. ELE era o melhor!

O garoto continuou sentado no colchão, encarando-a admirado. Como ela conseguia jogar com ele daquele jeito? A garota era a melhor humana que ele já havia visto e conhecido. Aliás, ela era muito melhor do que muitas de sua própria espécie também. E o que o garoto julgava ser o mais perfeito de toda a história, era o fato de que ela pertencia somente a ele! Agora sim, Andrey tinha certeza absoluta do motivo da ligação. Finalmente, ele tinha confiança no que estava sentindo por ela.

————————————————————

A raiva parecia crescer dentro dele. Matheus queria acreditar que tudo aquilo era uma brincadeira que sua mente estava lhe pregando. O garoto desejava estar vendo coisas.

Com certeza, fora a própria Mariane quem havia dirigido até a casa. Era ela quem havia saído do carro e passado, andando sozinha, por aquela porta, e não nos braços de um garoto. Não havia Andrey naquela história. Não existia garoto insolente algum ao lado dela a noite toda. Mas, infelizmente, não era essa a verdade.

Matheus parou a moto no meio fio, do lado da calçada oposta à da casa de Mariane. Desligou o veiculo e retirou o capacete sem pressa alguma. Ele queria ter certeza do tempo que aquele tal de Andrey ficaria na casa dela. E, se por acaso, ele passasse a noite inteira lá dentro, o irrefreável e irredutível Matheus também ficaria por ali. O garoto com espírito de caçador sentia que seria completamente capaz de fazer isso, virar a noite naquela rua fria e ficar de tocaia.

(começo do capítulo 10 do livro: Conto de Dragões / autoria: Fabiane Zambelli de Pontes)



Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

et cetera
Amor literário

Resenhas de Livros 📖 💻 📝

devaneiosdalua.wordpress.com/

Sobre tudo e ao mesmo tempo nada

Crônicas da Gaveta

Relatos amadores por Blair Pttsn

Sara M. Adelino

Tradutora. Revisora. Redatora.

WILDsound Writing and Film Festival Review

Feature Screenplay, TV Screenplay, Short Screenplay, Novel, Stage Play, Short Story, Poem, Film, Festival and Contest Reviews

Destino Feliz

Seu Blog de Viagens, Roteiros e Experiências

• powersx3

' in your mind,i have all power #

dmaimalopes

A great WordPress.com site

delenaalways

A fine WordPress.com site

evilking.wordpress.com/

Comic Book and related work by Danilo Beyruth

ibooksney

EM ANDAMENTO

My Broken Throat

Até que o medo se desfaça... Um engano do destino

%d blogueiros gostam disto: