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{abril 18, 2012}   O Destino da Escolha

(uma parte do capítulo…)

 

 

3º Capítulo

Vejas teu próprio âmago sob a luz da lua.

 

 

 

Mayara entrou no apartamento em silêncio. Apesar de não aparentar, sentia-se cansada. Havia ficado algumas noites sem dormir e agora que finalmente encontrara o seu “amigo” tão esperado, parecia ter permitido que seu corpo relaxasse e se deixou dominar pela fadiga. Esperou Marcos entrar e fechou a porta, tomando o dobro de precaução do que o costume. Afinal, agora ela estava escondendo um vampiro em seu apartamento.

– Fique à vontade vampiro. – jogou as chaves na mesa e massageou o couro cabeludo, tentando acalmar a necessidade que sentia, ansiava por um pouco de alivio que somente a massagem lhe proporcionava. – Irei ao meu quarto… Preciso dormir um pouco… – e sem encarar seu incomum hospede, rumou em direção ao aposento.

– Espere! – Marcos a segurou pelo braço, aquele tratamento informal e aquela indiferença, por algum motivo que ainda desconhecia, o estava incomodando. – Quando parará de me chamar de vampiro?

– Quando recuperar minha simpatia por você! – virou-se e encarou o vampiro com um olhar diligente.

– Não gosto de vê-la tratar-me deste jeito! – afrouxou um pouco as mãos para não machucá-la. – Já não me desculpei?

– Estou cansada… – ignorou os apelos dele e virou o rosto. – Boa noite! – tentou voltar a andar na direção do quarto.

– Será que não percebe? – Marcos a puxou com mais força, prendendo-a perto de seu corpo. – Inexplicavelmente, eu não gosto de vê-la tão distante assim de mim. Além de ter me encantado com a sua beleza e coragem, sei que sinto algo especial por você. Não sei direito como, porquê ou o que sinto… Mas, é como se já a conhecesse!

– Bobagem! – Mayara o empurrou para que pudesse se soltar. – Se não queria me ver distante, então não zombasse de minha generosidade! – assim que conseguiu se ver livre do vampiro, correu até o seu quarto para que não corresse o risco de ser impedida por ele novamente. – Mais uma vez… Boa noite, vampiro! – bateu a porta.

– Aaaaah!! Mas que mulherzinha temperamental e impossível! – se jogou no sofá, completamente irritado e chateado.

– Mas que vampiro impertinente! – Mayara praticamente arrancou o sobretudo do corpo e o jogou na cama, tamanho era o seu aborrecimento. – Por que ele simplesmente não me agradece ao invés de ficar fazendo brincadeirinhas idiotas e falando coisas sem sentido? – foi até a janela e colocou a mão sobre o peito. Seu coração estava disparado. – Hupf… Como ele se atreveu a me deixar assim? – resmungou ao afastar-se da janela.

– Eu deveria imaginar que essa humana é uma cabeça-dura! – levantou do sofá e foi até a sacada para tentar acalmar a mente perturbada. – A culpa é minha por me abrir com uma ignorante! – sentiu um leve perfume passar por ele. Sua fisionomia mudou, ficou mais calma. – Mayara… – olhou para a janela acesa próxima a sacada. Era o quarto da humana. – Por que você me deixa tão irracional? Eu só a conheci esta noite…

– Por que eu levo tudo o que ele fala a sério? – se despiu e jogou toda a roupa sobre a cama, em cima do sobretudo. – Nem o conheço direito e já sinto meus sentimentos oscilantes com suas palavras. Devo estar louca! Só pode ser isso… – foi até o banheiro, encostou a porta e ligou o chuveiro. Um bom banho quente a ajudaria apaziguar seus sentimento e faria com que seu corpo agradecesse pela terapêutica e relaxante água que caia e levemente massageava seus músculo.

Marcos ficou observando a janela por alguns minutos, perdido em um turbilhão de pensamentos. A falta de harmonia entre seus desejos e sua razão estava começando a deixá-lo impaciente. Sentia uma enigmática vontade incontrolável de ir até aquele quarto, de espioná-la…

Aquele conflito interno era novo e misterioso para ele. Nunca havia se sentido assim antes, ainda mais por uma humana que havia acabado de conhecer.

Mayara fechou seus olhos debaixo da tranqüilizante e revigorante água e deixou escapar um sorriso. Apesar de tudo sentia-se feliz. Finalmente ela havia encontrado o seu tão esperado “alguém”!

Sem saber direito como e porquê, o vampiro se viu dentro do quarto dela. Olhou ao redor cauteloso, não queria se envolver em mais conflitos. Certificou-se de que realmente não havia ninguém ali e sentou na cama. Pegou a blusa que a mulher estava usando e a colocou perto do nariz. Como aquela humana cheirava bem…

Analisou o quarto mais uma vez para ter certeza. Realmente não havia ninguém ali. Fechou os olhos e aguçou seus outros sentidos. Ouviu o barulho do chuveiro e, sem conseguir se controlar, foi silenciosamente até a porta do banheiro. Ficou a espionar pela fresta que Mayara havia deixado acidentalmente ao apenas encostar a porta ao invés de fechá-la totalmente. Marcos deu um sorriso de triunfo e satisfação. Estava vendo a silhueta de Mayara atrás do boxe, tomando banho. Aquela imagem parecia ser o verdadeiro paraíso para seus olhos.

A mulher sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Alguém a estava espionando! Olhou em volta e viu a fresta. Desligou o chuveiro e puxou a toalha, cobrindo seu corpo nu. Ao perceber a reação da humana, o vampiro se colocou em alerta. Precisava fugir dali antes que ela o descobrisse! Correu até a janela. Mayara saiu do banheiro e cuidadosamente vasculhou o quarto com o olhar, havia ninguém ali, exceto ela.

– Parece que estou realmente cansada… – murmurou – Meus sextos sentidos não estão funcionando como deveriam. – enxugou-se e colocou o pijama.

Marcos, mais do que depressa, se jogou no sofá novamente. Se tivesse demorado mais um segundo, Mayara o teria pegado! Olhou em volta e começou a rir com gosto. Pela primeira vez em sua vida havia fugido de uma humana ao invés do contrário!

Mayara arrumou o seu quarto para ir dormir. Sentiu o estômago vazio e lembrou-se de ter apenas tomado um suco e um sorvete durante o dia todo. Nada a mais!

Colocou as mãos sobre a barriga e a ouviu roncar. Pelo visto o seu estômago não queria ir dormir sem nada para digerir. Suspirou e decidiu ir até a cozinha comer algo antes de se deitar.

O vampiro estava deitado no sofá, tinha os seus olhos fechados e parecia ligeiramente alegre. Quando saiu de seu quarto e deparou-se com essa cena, a mulher ficou curiosa. Por que ele parecia tão feliz assim? Resolveu ignorar e foi até a cozinha.

Marcos, ao sentir o perfume da humana se intensificar, aprumou a audição e ouviu um barulho vindo de perto. Abriu os olhos, olhando na direção de onde julgava vir o cheiro e o barulho e viu Mayara sair da cozinha, carregando uma xícara e um potinho com frutas.

– Hum… Fazendo um lanchinho antes de dormir?

– Fiquei com fome. – sentou na poltrona ao lado do sofá, tomando cuidado para não derramar o conteúdo da xícara. – E… Desculpa por ter sido arrogante com você, mas quando estou cansada eu fico meio chata mesmo. – deu um gole em seu chá, evitando os olhos envolventes de Marcos.

– Quem tem que pedir desculpas aqui, sou eu. – sentou no sofá, ficando de frente para ela e a encarou com olhos de remorso. – Fui meio criança e… Sonhador demais…

– Sabe… – suspirou. – Pensando bem… – colocou a xícara no chão e cruzou as pernas, ficando sentada sobre a poltrona. – Você não foi tão infantil ou sonhador assim…

– Não fui? – não tinha conseguido conter a surpresa com o comentário.

– Não… – mordeu uma maçã.

O vampiro deu um largo sorriso. Afinal, parecia que ele estava finalmente recuperando a simpatia dela!

– Está com fome? – perguntou enquanto olhava para a marca da mordida que havia acabado de dar na fruta.

– Bom… Estou um pouco. – confessou com um sorriso torto. – Mas, como você já deve saber, a única coisa que me sacia é sangue e… – olhou-a de maneira duvidosa. – Eu acho que você não me deixará ir caçar sozinho, não é?

– Mas, quem disse que você terá que caçar?

– Então, é você quem me dará sangue? – perguntou em tom de brincadeira.

– Sim… Tecnicamente, serei eu! – levantou do sofá, ignorando a reação de Marcos com a sua resposta.

– Sério?! – o vampiro estava espantado e com uma expressão de desacreditado.

– Vem comigo. – Mayara foi até a cozinha sendo seguida de perto por Marcos que havia levantado em um pulo do sofá assim que ela o chamou.

Quando entraram na cozinha, a humana colocou seu potinho em cima da pia, abriu a geladeira e tirou de dentro um saquinho contendo algo viscoso e liquido, de  uma cor vermelho vivo.

– Toma! – jogou o saquinho para ele.

– O que é isso? – pegou-o no ar e a encarou confuso e com um ar questionatívo. Aquilo era realmente o que parecia ser?

– Oras… É sangue!

– Mas, é sangue mesmo?! Não tá de brincadeira não? – cheirou o saquinho para ter certeza. – Nossa… O pior é que aqui dentro tem mesmo sangue. – disse para si mesmo, tentando fazer seu próprio cérebro acreditar naquilo. A humana o estava alimentando?

– Pode comer. – encostou-se na parede e ficou a observá-lo. – Tenho um amigo que trabalha no banco de sangue de um hospital aqui perto e como ele me devia um favor… Consegui alguns desses para você.

– Obrigado. – olhou para o saquinho e ficou brincando com ele, fazendo o conteúdo balançar de uma ponta a outra. – Quando foi que você conseguiu isso daqui?

– Faz um tempinho que estou com eles… – admitiu. Mayara sentiu seu rosto dar uma leve esquentada enquanto respondia.

– Antes de me encontrar? – voltou a encará-la, mas fingiu não perceber o suave e meigo rubor que aparecia no rosto dela.

Mayara ficou calada, não queria responder. Se respondesse, deixaria muito obvio que estivera esperando por ele e se isso acontecesse, ela teria que explicar o porquê e, por enquanto, queria evitar aquele assunto constrangedor e estranho o máximo possível.

– Vamos! Tome isso logo! Preciso ir dormir.

– Então, por que não vai dormir? Eu sei me alimentar sozinho. Não preciso de supervisão! – respondeu sem evitar o mau humor. Tinha ficado aborrecido com o fato de ela ter fugido da sua pergunta. Mayara realmente precisava ter evitado sua pergunta? Aquilo o levava a uma curiosidade que talvez fosse impossível de ser saciada até que a mulher resolvesse falar. Esse tipo de situação que o deixava sem alternativas, a não ser conviver com uma questão sem resposta o irritava.

– Não precisava ser tão grosso. – lançou-lhe um olhar de censura, completamente chateada com a reação seca e mal humorada do vampiro. Ele tinha mesmo que estragar tudo quando as coisas estavam começando a ir tão bem entre eles? Estava realmente chateada e não iria disfarçar isso. – Estava apenas preocupada, mas já que a minha preocupação de nada lhe agrada… Vou me retirar daqui. – saiu da cozinha com passos rápidos e nervosos. – Boa noite, vampiro! – bateu novamente a porta do quarto. Jogou-se em sua cama, resmungou algumas coisas e logo o cansaço a fez adormecer.

– Eu e a minha boca grande… – sentia-se revoltado consigo mesmo e cravou seus dentes no saquinho sugando todo o seu conteúdo. – Droga! – voltou para o sofá, se jogou nele e ficou a meditar sobre tudo o que estava acontecendo desde o momento em que ela havia pisado naquele saguão.

 

 

 



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