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{dezembro 3, 2012}   Dica de leitura do dia: Abusado – O dono do Morro Dona Marta

Abusado – O dono do Morro Dona Marta

 

 

Autor: Caco Barcellos

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“Os tiroteios faziam chover até em dia de sol forte na Santa Marta. Os ‘chuveirinhos’, alegria das crianças, eram provocados pelos projéteis de vários calibres que sempre rompiam as tubulações de água potável devido a uma rara característica da velha rede de distribuição, criada nos tempos dos mutirões de Dom Hélder Câmara.” – trecho retirado do livro Abusado – O dono do Morro Dona Marta.

Abusado – O dono do Morro Dona Marta é um dos grandes livros reportagens do conhecidíssimo jornalista Caco Barcellos. Na obra, Barcellos expõe parte da história da favela Santa Marta, bem como suas guerras do tráfico. É um livro cheio de implicações éticas, morais, legais.

Durante a leitura, fica claro que para se entender a violência urbana instalada no Rio de Janeiro (que pode servir de espelho para outras cidades do país e do mundo), é necessário compreender como pensam e como agem os criminosos que impõem o terror, explorar os motivos que os levam a isso e enxergar os “dois lados da moeda”.

Assim sendo, o repórter constrói a narrativa através da trajetória do personagem mais conhecido: o traficante Marcinho VP (nesse livro, não conseguimos dizer ao certo se existe um personagem principal, visto que várias histórias vão sendo contadas). A infância de Marcinho VP, tratado na obra como Juliano, se passa inteiramente na favela.

Filho de pais nordestinos, Juliano entra para o quadro de crianças que abandonam os estudos bem cedo, para poder ajudar em casa, sendo que no caso do personagem, seria ajudar “com a birosca do pai”.

Sem salário, sem perspectivas profissionais e/ou de futuro, Juliano, vulgo Marcinho, começa a fazer bicos que o levam rapidamente ao envolvimento com o tráfico de drogas.

Até este ponto, a história é bem parecida com a que ouvimos falar por aí, sobre jovens de favela que entram para o tráfico, ou por falta de opção ou por essa ser a realidade constante com a qual estão acostumados. No entanto, a trajetória contada ali não é de um simples traficantezinho, Marcinho VP é um dos criminosos mais famosos do Brasil!

Inicialmente, não existem discrepâncias da vida deste personagem para a de tantos anônimos que tombam pelas balas entre facções e polícia, contudo, o diferencial está na ascensão “meteórica” de Juliano dentro do tráfico.

Em poucas semanas, VP se torna “o maior avião da boca” e em seguida conquista o respeito e a confiança dos líderes, demonstrando coragem incomum para um iniciante em “situações de combate”.

Após duas guerras de morro, várias prisões e uma temporada na Bahia, Marcinho consegue tomar para si o controle da favela onde viveu a infância, local onde também vivem os amigos mais próximos e a família. Durante o enredo, percebe-se que este é o momento de glória de Juliano e em que as atenções se voltam para ele, seja pela mídia, policiais ou de alguns conhecidos (amistosos ou não). Tal “chamariz” não acontece somente por causa de sua ascensão como traficante, mas, também, por ocasião das gravações de um clipe de Michael Jackson na Santa Marta.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, Juliano se mantém como líder e fora da prisão por vários anos. Além disso, ele impressiona pelas amizades que acabou fazendo com algumas celebridades, como: o cantor Zeca Pagodinho, os irmãos Moreira Salles, cineastas e donos do Unibanco.

Os tais contatos “intelectuais” e famosos de Juliano, durante o enredo, mostra que acabaram caindo no conhecimento de alguns e repercutindo entre os comandantes de outros morros ligados ao Comando Vermelho (C.V.). O que ajuda a difundir o seu apelido de Poeta e a crença de que o chefe da Santa Marta era um doidão que: matava pouco; desprezava dinheiro; defendia idéias esquisitas; e tinha a pretensão utópica de se tornar uma espécie de embaixador do tráfico no Rio de Janeiro.

Adiante na história, falido com as incursões da polícia, o traficante conta com a ajuda de João Moreira Salles, quem o financia com uma gorda mesada no exterior. Tal dinheiro é dado com o intuito de que Marcinho VP abandone o tráfico e a criminalidade. Contudo, quando a mídia descobre a relação entre ambos, o cineasta recua e Juliano se vê obrigado a retornar para o Brasil onde é preso e tratado como o traficante mais perigoso do país, mesmo estando arruinado financeiramente e com o grupo desorganizado.

Abusado é uma verdadeira lição sobre a lógica e as sinuosidades de operações das grandes corporações criminosas, que comandam o tráfico de drogas e outras atividades criminosas no Rio de Janeiro e em outros estados. Através da história de Juliano, obtém-se um retrato histórico da ocupação do morro pelo Comando Vermelho (C.V.), principal facção criminosa no estado.

Aliás, a meu ver, Juliano é um personagem extremamente fascinante! Um criminoso com refinado gosto literário, preocupado com o destino da comunidade favelada do Rio de Janeiro e cujos contatos, como se pode constatar, iam dos violentos chefes do C.V. até importantes intelectuais cariocas.  E além de ser a visão única do jornalista sobre um ícone da violência moderna, VP é uma pequena releitura do tema bandidagem. Longe da sociologia e do antropologismo de estudos anteriores, o livro do consagrado repórter é uma pequena exposição ao bandido moderno.

Com o pretexto de fazer uma biografia do traficante Marcinho VP, o escritor mergulha no submundo do crime no Rio de Janeiro, e nos permite perceber que, em meio a uma espécie de guerra no fim do mundo, gangues rivais se digladiam e transgridem a lei de maneira violenta, mas que ali também se realizam processos de formação da identidade, agregação coletiva e laços de sociabilidade.

Realmente, Caco Barcellos reporta o desenvolvimento da cidadania dos moradores da Santa Marta, seus esforços e conquistas em um morro cravado na Zona Sul carioca. Porém, além do lado “bom’, o repórter também expõem o lado “mau”, com tudo o que uma favela pode ter de ruim, como: as péssimas condições de higiene; a pobreza; a desesperança; o medo da violência do tráfico; e a brutalidade da polícia.

Não se trata apenas de uma “romantização” da vida de um bandido superestimado, mas a obra traz em suas numerosas linhas uma versão da história desconhecida de todos e de nos mostra um dos grandes personagens de nossa literatura.

Neste livro impressionante, Barcellos denuncia policiais, esmiúça combates, reconstrói a trilha de moradores de rua e das favelas e mostra que a vida de um líder de morro pode ser das mais improváveis e inusitadas possíveis. O livro é um relato de vida e de morte que mostra claramente o submundo da criminalidade carioca. Eu realmente recomendo essa incrível obra do jornalismo literário: Abusado – O dono do Morro Dona Marta.

 

 

“Eu sou o monstro que vocês criaram. Vocês me mitificaram. Vocês precisam disso para sobreviver.” – fala de Marcinho VP, vulgo Juliano, retirada do livro Abusado – O dono do Morro Dona Marta.

abusado

 

 

 

Curiosidade:

Durante a produção do livro, Caco Barcellos esbarrou em uma série de questões éticas, morais e legais. Mas como era de se esperar de um jornalista com sua trajetória, essas questões foram tratadas com muita idoneidade.

Uma das medidas adotada pelo jornalista foi omitir nomes para “evitar intriga, perseguição ou punição jurídica às fontes“, como esclarece em nota no inicio do livro.

Contudo, após o lançamento da obra em 2003, Barcellos acabou sendo o perseguido, precisando sair do país por um tempo, devido à intensidade das ameaças que recebia.

Em 2004 o jornalista retornou ao Brasil, pois o livro se tornou o grande vencedor do Prêmio Jabuti 2004 na categoria Reportagem e Biografia.

Aliás, reza a lenda que o jornalista chegou a abrigar o Marcelinho VP em sua própria casa, durante um período mais complicado de perseguição à sua fonte!



Real nice layout and great content, nothing at all else we want😀.



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