World Fabi Books











{setembro 9, 2015}   Resenha: Espelho Dos Olhos (Nicolas Catalano)

“E se por causa de uma revelação sua vida mudasse? E se por causa de ser quem você é as pessoas te julgassem sem ter conhecimento algum? Revelar-se, às vezes, pode não ser uma boa ideia. Mas é preciso.”

Assim começamos com mais uma resenha do World Fabi Books!

E para quem ainda não adivinhou o livro, informo que o post de hoje é dedicado à obra do autor brasileiro Nicolas Catalano:

Espelho Dos Olhos

espelho dos olhos

Bom…

A história serpenteia ao redor de Evangellyne Allins, uma interessante garota que, desde o inicio, demonstra não ser apenas mais uma na multidão. Ela, claramente, não é como a maioria e não irá seguir os mesmos passos contínuos e sem futuro que grande parte da população parece seguir às cegas e/ou sem questionamentos.

Contudo, é através dela que percebemos aquela centelha… Aquela fagulha que possa existir escondida dentro de cada um, prontinha para explodir, desde que alguém dê o click certo.

Resumindo…

Evangellyne (por sinal, adoro a sonoridade do nome da personagem) se vê em um mundo EXTREMAMENTE caótico e preconceituoso/extremista (consegue ver a semelhança com a realidade? Pois é, eu também!), onde as pessoas são divididas por classes de talento de acordo com as cores de suas íris (o que achei bem interessante!).

Na obra, lidamos com uma sociedade em que as pessoas têm talentos literalmente impostos geneticamente a elas, sendo que apenas a menor parcela da população de Stravânsia tem a chance de desenvolvê-los de fato. E mesmo assim, isso, nem de longe, é a garantia de uma vida feliz…

E como se não bastasse essa imposição absurda em que até “ser quem você é” é imposto, nossa protagonista ainda tem que lidar com a tirania da Rainha Scherzer, uma criatura vil, repleta de pretensões injustas e abusivas.

O leitor é facilmente levado para dentro de um mundo subversivo, numa saga de distopia, onde a humanidade já se perdeu dos valores humanos e está completamente dominada pela tecnologia, sendo que o único toque que o escritor dá para diferenciar minimamente da impressão que temos de que é assim que o nosso mundo irá se tornar, está na ligação daquele universo conturbado com a presença constante de seres fantásticos, os quais nem sempre são sinônimo de magia e beleza nesse caso.

No entanto, nem tudo é trevas!

A obra também nos revela a luz dentro da escuridão!

Quando Evangellyne começa a sua jornada, nos deparamos com personagens únicos, que se prendem a nós de uma forma tão natural, que só percebemos ao final da leitura, no momento em que sentimos falta deles ou, especialmente, no instante em que os comparamos com pessoas da nossa vida “real”.

Aliás, as características dos personagens são tão fortes, que é impossível não fazer comparações. Simplesmente os encontramos com facilidade dentro do nosso próprio mundo.

Podemos:

  • Ver a Valete Coupness nos trejeitos loucos de uma amiga do peito, em nossa mãe, numa irmã ou naquela pessoa para quem resolvemos dar uma segunda chance e começamos a gostar por sua particularidade;
  • Encontrar o Gregory Buckerman em uma atitude humana de um amigo, pai ou irmão;
  • Reconhecemos o nosso lado chocólatra, ingenuo e apreensivo de Teronka Cranber;
  • Admitimos o nosso lado intolerante e opressor de Scherzer Straferry, além de também vê-lo nas pessoas ao nosso redor (e/ou nas que estão em no poder);
  • Através de Haspherity Cyani, enxergamos o lado totalmente extrovertido e irreverente de nossos amigos, parentes e até de nós mesmo;
  • E nos vemos muito bem através dos olhos de Eva Banshester, ou melhor: a parte mais “calejada” e durona de Evangellyne Allins (a qual também representa também uma parte que dificilmente reconhecemos em nós)
desenhos de Leonardo Genari Mucsi e foto de Kevin Noan

Desenhos de Leonardo Genari Mucsi e foto de Kevin Noan

Enfim, a partir do momento em que fica fácil reconhecer aquele universo dentro do seu, a obra prova que você não está ficando louco, na verdade, ela demonstra que você é louco sim, bem como todos aqueles que ama e que estão ao seu redor.

Entretanto, a loucura a que me refiro, não é aquela pejorativa, mas, àquele estado único de ser.

Refiro-me à loucura de ser único e especial, de não ser “Maria vai com as outras”, de se destacar por sua singularidade e se apaixonar pelo excepcional que há em cada uma das pessoas que estão em sua vida/jornada, mesmo que esse “excepcional”, de inicio te irrite até admiti-lo e enxerga-lo como potencial… (nesse caso, admito que no começo me irritei bastante com a personagem Valete, até que, de repente, me vi tendo uma empatia interessante por ela)

Aliás, por um ponto totalmente pessoal (meu e só meu – Fabi), digo que cada personagem me cativou num ponto e me irritou em outro. Alguns até me surpreenderam ou assustaram… Porém, no fim, acredito que durante a leitura eu tenha conseguido entender o propósito de cada um dentro da trama.

Além disso, eu pude sentir, bem no finalzinho, que nós, leitores, somos meio que um espelho dos olhos da Evangellyne. Se pararmos para meditar sobre o que acabamos de ler, é um tanto perceptível essa sensação.

De qualquer forma (e retomando o raciocínio a respeito dos personagens), eu imagino que o escritor tenha “estilizado” os personagens, no entanto, sinto que cada um deles representa mais de uma pessoa e/ou situação da vida de Nicolas Catalano (e isso, creio eu, pode ser sentido por mais gente).

Inclusive, vi/li por aí que há quem compare a essência da leitura de “Espelho Dos Olhos” com “uma saga de encontro a verdade que existe dentro de cada um de nós, mas que infelizmente, nem sempre conseguimos usufruí-la, devido aos nossos medos e imposições sociais” (Leonardo Genari Mucsi).

E lhes digo que concordo plenamente!

Este livro é uma obra intimista demais! Nele, enxergamos não somente os anseios, desejos e medos do escritor, como, também, reconhecemos ali no meio das palavras os nossos próprios receios, sentimentos e barreiras.

Naquele enredo há muito mais do que uma estória, há a história de cada um que pega o volume nas mãos para absorver um pouquinho do que Nicolas Catalano tem a nos doar de suas experiências.

Ali, nos vemos cara a cara com o reflexo de nossas próprias verdades, as quais somos obrigados a encarar ao final da leitura, quando paramos para ruminar o livro…

Fazemo-nos tantos questionamentos quanto a obra em si faz: Vale a pena ser quem querem que seja? Por que é tão difícil ser você mesmo? Deveria ser assim? Se há quem nade contra a corrente, então, por que eu também não posso nadar e ser um exemplo a ser seguido? Por que não posso apoiar aqueles que se sacrificam? Até quando vamos continuar cegos para as injustiças que vejo? Por que ainda não me ergui e lutei?

As questões estão claramente ali e elas têm propósitos! O que apenas complementa ainda mais o aspecto intimista do livro.

Ao fazer o leitor pensar por si próprio, sem induzi-lo demais para dentro do seu “próprio pensar”, o autor praticamente cria um diálogo. A leitura vira uma conversa, quase um debate.

Pelo menos foi assim que pensei…

Tinha hora que eu me pegava “conversando” com o enredo, debatendo a respeito do que os personagens estavam fazendo ou deixando de fazer, enquanto que, ao mesmo tempo, agregava para mim mesma as experiências e atitudes deles, gerando uma discussão interna também. Digamos que eu não era exatamente a personagem, mas pensava junto com ela. (Dá para entender?)

Ou seja…

Apesar de “Espelho Dos Olhos” ser um livro de ficção/fantasia, com certeza, qualquer leitor poderá se identificar com o que ali foi escrito (ou melhor, exposto) e poderá captar com facilidade as crítica ali expostas e transmiti-las para a realidade em que vivemos fora das palavras impressas!

Para que vocês possam entender melhor o quanto essa obra intrínseca é especial, o World Fabi Books fez uma breve entrevista com o autor, Nicolas Catalano:

nicolas catalano

W.F.B.: Qual era o sentimento predominante durante a preparação do livro?

N.C.: O meu sentimento predominante durante a preparação do livro era totalmente ligado à “sede de expressão”. Bom, eu tinha uma tremenda sede e vontade que invadia o meu ser… todos os dias. Eu sentia… Era como se o mundo precisasse saber alcançar novas percepções na vida cotidiana. Abrissem os olhos. Percebessem e soubessem lidar com seus maiores problemas de uma maneira mais fácil. Nisso, aquela vontade de expressar, crescia cada vez mais e mais… E a minha intenção era atingir; e fazer com que o ‘ponto da naturalidade das resoluções dos problemas diários’ fosse encontrado de uma maneira menos sufocante.

Aliás, havia um grande sentimento de arte também. Eu queria valorizar a arte a qualquer custo, pois ela é fenomenal e VIVA. Faz o ser humano criar valores e viver a vida com gosto.

W.F.B.: Qual é o seu pedacinho especial/predileto da história?

N.C.: Hm! Tenho vários… rs! Mas acredito que o meu pedacinho *super predileto* é quando a Evangellyne Allins (Eva Banshester) tem o seu primeiro contato ‘corpo a corpo’ com alguém. Sabe, a presença física! Apenas o ato. O simples toque do ser humano que às vezes torna-se uma inconsciente cura dos sentimentos mais dolorosos. E é quando ela é intimidada a dançar em casal na aula da Mestra mais descabida, endoidada, e expressiva da Escola Talental, com o calouro do mesmo ciclo experimental que o dela: Gregory Buckerman. É uma cena bem simples, onde ela conecta-se com o Vocalizador de um modo aparentemente íntimo, pois ela mal conversa com as pessoas, quem dirá “aproximar-se tão perto assim” (devido ao estado em que ela encontra-se). Porém, ao deixar-se levar (mesmo estando super tímida por estar tão perto dele), é exatamente lá, naquela simples e endoidada dança que requer as pequenas ações do corpo, que Eva percebe que os fatos de sua vida um dia foram agradáveis. “Os movimentos um dia foram doces, agora, estão amargos; agridoces. E eu nem sequer sinto-me à vontade em uma dança.”

Ela finalmente estava conseguindo se adaptar aos seus sentimentos de um modo natural, entendendo-se melhor e criando devidas reflexões. O que, nos leva a pensar imediatamente nas nossas ações dos dias de hoje, pois, na realidade, temos as melhores conclusões, soluções e reflexões prol ao amadurecimento quando estamos executando as coisas mais simples possíveis. Algo naquele momento ativou, atingindo a naturalidade dentro do ser de Eva Banshester. E foi apenas uma dança em dupla.

W.F.B.: O que o leitor poderá ver de você dentro da obra?

N.C.: Acredito que bastante coisa… Para começar, Evangellyne é uma parte muito particular minha. E, acredito que, as decisões e dores tomadas por ela, eu apoio e compreendo *praticamente* todas!

O leitor enxergará um grande senso e vontade de justiça. Além de grandes rumos à benevolência. Eu apoio a paz (todos os tipos, seja ela mental e espiritual) e a harmonia na vida do ser humano. Sou totalmente contra ações sem noções. Ações que levam às estúpidas injustiças! Contra pessoas que querem estragar o simples “ar” dos outros por estarem desesperadamente desequilibradas.

O leitor também poderá enxergar o sentimento do “amadurecer”. Desde o começo da história, tentei demonstrar a passagem da vida adolescente à vida adulta. E foi bem complicado dizer “Olá” ao mundo adulto e ter que escolher uma profissão para a vida inteira com apenas 17/18 anos. Isso fica claro na história. Evangellyne demonstra isso.

W.F.B.: Uma mensagem para o leitor.

N.C.: A mente é o controle de tudo. É a nossa visão e guia do mundo. Portanto, alimente-a com sabedorias fenomenais e cuide da melhor maneira possível dela; antes de qualquer coisa!

W.F.B.: Curiosidades para nos revelar?

N.C.: O livro era para ser bem maior. Rs. Entretanto, resolvi cortar algumas cenas.

Um dia antes de enviar manuscrito, resolvi tirar todos os nomes de cada capítulo. Sim! Eles tinham nomes.

O primeiro esboço era um “mundo vocal” onde só existiam pessoas que cantavam. No caso, somente “Vocalizadores”.

Em 2010, o livro chamava-se “Força de um Olhar”. E o mesmo foi roubado, na minha própria casa.

Em cenas intensas, eu não dormia à noite. Sentia-me muito elétrico e os personagens “me atormentavam”! QUE TORMENTO!

Já fiquei extremamente confuso se as ações de Evangellyne seriam as mesmas que o Nicolas tomaria. O ar da personagem “incorporou” o meu ser diversas vezes.

Sentir a Eva Banshester (o reflexo mais duro de Evangellyne) por completo foi extremamente perturbador.

Dediquei o livro à melhor (amiga) pessoa que conheci: Jéssica, que hoje brilha no céu.

Rescrevi o 1º capítulo mais de 100 vezes.

Eu tinha que dividir o meu dia a dia em: trabalhar, escrever, estudar, fazer trabalhos e ir à faculdade à noite.

Alguns personagens realmente foram baseados em pessoas reais.

capa - espelho dos olhos

E com isso, nós os deixamos com a Sinopse oficial da obra de 464 páginas, publicada pela Editora Novo Século (através do selinho Novos Talentos da Literatura Brasileira), a qual COM CERTEZA recomendamos que leiam!😉

“E se por causa de uma revelação sua vida mudasse? E se por causa de ser quem você é as pessoas te julgassem sem ter conhecimento algum? Revelar-se, às vezes, pode não ser uma boa ideia. Mas é preciso.

Enquanto Evangellyne Allins tenta sobreviver a uma Escola tirana, num país onde a cor dos olhos, Elites e Classes de Talento são o que importa, a vida de seu querido pai está em risco.

Será que valerá a pena enfrentar todos os seus reflexos mais profundos e íntimos pela pessoa mais amada? Tortura. Medo. Aversão. Evangellyne será forçada a descobrir-se e obrigada a arcar com as consequências desoladoras de sua revelação; e seu Espelho dos olhos a transformará inconscientemente.”

Texto by Fabi

nicolas catalano e fabi

Nicolas Catalano (escritor) e a Fabi Zambelli de Pontes



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