World Fabi Books











Sabe… Faz exatamente uma semana que o World Fabi Books não visita o facebook, pois, sinceramente, faltou vontade e coragem…

No dia 21 à noite, domingo passado, vimos uma grande mulher partir deste mundo e se tornar uma das luzes mais lindas e fortes do céu.

Nós a conhecíamos e, apesar de não sermos tão próximos assim, sentimos a sua falta e sofremos com a perda.

Ela era uma mulher de existência tão pura e de coração tão grande que alguém lá de cima a viu e se fascinou! Os anjos foram enviados para buscá-la e como uma bela flor, ela foi colhida de nosso jardim, para ser presenteada a Ele no céu. E para que as pessoas que foram tocada pela beleza de seu amor não sofressem DEMAIS, resolveu-se levá-la na virada da primavera, assim… Nossa flor iria florir e brilhar lá em cima, enquanto nós poderíamos vê-la em cada desabrochar da Primavera aqui em baixo…

Carolina era uma amiga, uma filha, uma irmã, uma cantora, uma leitora voraz, uma pessoa mais do que especial… Ou melhor, ela não era, ela ainda É, pois independente de onde esteja, ela continua sendo a alma maravilhosa e bondosa de sempre!

No dia 30 de Setembro ela apresentaria, junto com o Grupo Singulari, o musical RENT… Na história da apresentação, os personagens perdem um grande coração, cujo apelido era Angel… Agora, eles possuem a sua própria Angel, que, infelizmente, não poderá se apresentar com eles de corpo, mas, com certeza estará lá em sua forma mais bela de anjo!

Carolina Fróes… Nós sentimos a sua falta e onde quer que esteja nesse imenso mundo do céu, pedimos para que olhe por nós, guardando-nos em seu coração, assim como sempre a guardaremos nos nossos e olharemos por você quando virarmos nossos rostos para o céu e virmos o seu amor ali, espelhado nas estrelas!

CAROL

Fica aqui, a nossa homenagem a essa linda e doce mulher!

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(sobre o espetáculo RENT, clique AQUI)



{maio 14, 2012}   A Protegida e o Princípe

1º Capítulo

O forasteiro.

 

 

 

 

Katherine acordou agitada. Não agüentava mais permanecer naquele convento. Desde os dez anos, vivia naquele lugar isolado, aprendendo com padres e freiras o significado da vida de acordo com a visão religiosa.

Não era freira e nem noviça, era apenas uma órfã amparada por eles. As mais anciãs daquela clausura diziam que ela era a escolhida divina, a futura salvadora e, com base nessa crença, aconselhavam-na a estudar com determinação e se afastar de homens impuros.

Olhou pela janela, satisfazendo-se com a bela manhã que viera junto com o sol, e trocou-se. Estava faminta, mas não queria comer a mesma aveia com frutas e pão de todas as manhãs… Queria algo diferente. Saiu do quarto decidida a mudar a sua monótona rotina de vida.

– Ora essa! Parece-me que hoje não terei que acordá-la! – comentou a irmã Joana enquanto passava ao lado de Katherine. Ela era uma freira de 35 anos. Era um pouco amarga e rígida com os convivas, mas sempre que o padre Jorge, o mais jovem e gentil de todos os párocos daquele convento, lhe cumprimentava, seus jeitos mudavam, ela ficava mais tolerante. E, pelo que tudo indicava, o padre já a havia cumprimentado naquela manhã.

– Claro que não precisará, irmã Joana! – olhou-a com o canto dos olhos sem parar de andar. – Já estou acordada… Não é? – foi até o refeitório.

– Bom dia Katherine! Acordou cedo essa manhã! – cumprimentou uma freira idosa, a qual já lhe estendia uma bandeja farta com os mesmos alimentos de todas as manhãs.

– Sim irmã Clara… Não consegui permanecer mais tempo em minha cama hoje… – pegou a bandeja, fazendo uma leve careta ao ver a comida.

– Pelo visto, você está finalmente começando a se adaptar à rotina daqui. Logo, logo verá como é satisfatório seguir o mesmo caminho que nós, irmãs, escolhemos!

– Quem sabe, irmã Clara… – afastou da senhora com um sorriso gentil no rosto e sentou-se em um canto do refeitório. Tinha mil planos a elaborar naquela manhã. Pelo menos um dia em sua vida deveria ser diferente. – Preciso sair daqui… Pelo menos por alguns minutos… Mas como…? – sussurrava consigo mesma, como se o som de sua própria voz fizesse seu cérebro despertar e criar um novo plano que fosse desprovido de falhas.

– Frei Heitor! Veja! – a irmã Madalena mostrava um saco vazio ao frei. – As amêndoas acabaram e logo será a vez das batatas… Precisamos nos reabastecer!

– Sim… Sim… – o velho frei examinava o saco vazio. – Reúna três de nossas irmãs e vá até o mercado. Compre o necessário…

– Farei isso! – ao virar-se para fazer a convocação das freiras que a acompanhariam, a irmã Madalena deparou-se com Katherine, a qual exibia um grande e alegre sorriso.

– Não pude deixar de ouvir, irmã Madalena, mas a senhora está precisando de gente para ir às compras?

– Exato! E eu estava indo atrás de ajudantes antes de você bloquear o meu caminho Katherine!

– Hm… Desculpe, irmã Madalena. – deu mais um sorriso e tentou encenar a sua melhor feição de inocência. – Mas, a senhora poderia deixar que eu as acompanhasse até o mercado? Acredito que a minha ajuda seria muito valiosa, afinal, ainda sou jovem, estou no auge de meus 21 anos e poderia carregar com maior facilidade as sacas mais pesadas.

– Ora essa… Como a senhorita mesma disse, está no auge de seus 21 anos. É muito jovem para sair do convento. Ainda possui a carne fraca e é suscetível ás tentações, não passou tempo suficiente no convento para absorver toda a essência da pureza e a paixão pelo divino. Sem mencionar que não há a necessidade de nos acompanhar!

– Mas faz tanto tempo que eu não saio de trás desses muros… Acredito que seria de muita ajuda aos meus ensinamentos aprender algo fora deste divino lugar… Não? – ela continuava a exibir seu sorriso e um semblante inocente. – Eu estaria acompanhada das senhoras e, portanto, não me deixariam cairem tentação. E, além de serem minhas supervisoras, poderiam ser minhas tutoras e me ensinar, com exemplos reais e vividos, as conseqüências de quem se afasta do chamado divino…

– Hm… – a pobre freira encarou-a com olhos críticos. – Pergunte ao frei Heitor… Se este permitir a sua saída, poderá vi conosco…

– Muito obrigada, irmã Madalena! Irei agora mesmo pedir permissão ao frei! – e antes que a irmã Madalena pudesse reagir, ela deu um rápido abraço na freiraem agradecimento. Finalmente, ela poderia sair daquele lugar! Mesmo que fosse ficar breves horas fora do convento, não tinha importância. Já estava mais do que feliz em poder ver pessoas que não chamassem umas as outras de irmã o tempo todo e não usassem batinas o dia inteiro.

– Sairemos em cinco minutos. Seja rápida! – advertiu a freira, retomando o seu recrutamento para as compras.

– Eu serei! – Katherine saiu correndo para a direção em que frei Heitor havia ido minutos antes de interpelar a irmã Madalena. Ela estava confiante. O caridoso frei com certeza permitiria que ela saísse com as freiras. Ele sempre se compadecera do sofrimento de Katherine por se sentir presa ali. Como todos do convento, Heitor esperava que ela se habituasse a rotina dali e se tornasse mais uma ótima irmã. No entanto, eles não poderiam obrigá-la a nada. E era nisso que a jovem apostava sua liberdade. Mais cedo ou mais tarde ela conseguiria sair dali e viajar o mundo. Por enquanto, ela se contentaria em passar alguns instantes ao ar livre com as irmãs e esta ida acompanhada até a cidade não possuía motivo para ser negada pelo bondoso frei Heitor.

 

 

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– Katherine, se comporte! – irmã Madalena puxava a garota pela mão, impedindo que ela se distanciasse muito do grupo. – Pare de tentar correr para todo lugar garota! Mais parece uma criança desobediente do que uma mulher madura!

– Desculpe, irmã! Mas é que tudo parece tão novo para mim… Há anos não saio do convento. Havia me esquecido de como é o mundo aqui fora! – Katherine olhava extasiada para as barracas de feira ao seu redor. Tudo parecia tão simples e ao mesmo tempo tão cheio de detalhes que ela se sentia impelida a absorver o máximo daquela experiência.

– Este é o mesmo mundo que te maltratou, Katherine… – Madalena a deixara mais próxima de si. – Esse mundo pode ser cruel minha jovem. – apontou para os becos escuros, onde grupos de pessoas se reuniam para apostar dinheiro, contrabando e jovens garotas da vida. – Vê? Há luxúria, violência, ganância, vaidade, abuso, corrupção… Não posso deixá-la se aproximar disso! – apertou a mão da garota com força. – Frei Heitor me deixou como sua responsável! Não permitirei que caia em tentação e que se perca pelo seu caminho.

– Meu caminho… – murmurou a jovem, tomando cuidado para que a freira não ouvisse o pouco caso em sua voz.

Até onde Katherine sabia, ela era dona de sua própria vida e por isso, trilharia o seu próprio caminho. No entanto, todos naquele convento pareciam querer acertar o rumo dela, conduzindo-a por uma estrada por onde não queria caminhar. Ela acreditava em destino, porém, ela não conseguia crer que viver daquela forma era mesmo uma obra do divino acaso. Suspirou e seguiu andando ao lado da irmã, sem mais se aventurar a se afastar dela. A mão já estava vermelha com o aperto forte de Madalena e, aparentemente, mesmo que conseguisse se livrar dela, as demais irmãs que as acompanhavam não permitiriam que ela fosse muito longe. Mesmo um tanto afastadas dela, todas à observavam e tomavam o cuidado de não deixar nada e nem ninguém se aproximar demais. Katherine se sentia como um animal emboscado, sem um lugar por onde fugir.

– Irmã Madalena! – uma jovem freira, de aparentemente 25 anos, aproximou-se da freira mais velha e segurou-lhe os ombros com força. – Há um tumulto logo adiante! Eu vi pessoas voltarem correndo e ouvi algumas comentando de uma briga feroz entre dois cavalheiros. O que devemos fazer, irmã? – soltou os ombros de Madalena e apertou as próprias mãos com o nervosismo. – Eu sei que é o nosso dever ajudá-los, mas estamos com Katherine aqui! – passou os olhos pela garota parada ao lado da freira.

– Eu sei. – olhou para Katherine e depois voltou a encarar com determinação a jovem freira. – Irmã Kátia, vamos impedir que aqueles pobres coitados se matem! Ajude-me a chamar as outras irmãs!

– Mas e quanto à Katherine…? – sua voz falhava. Ela odiava violência e saber que uma briga tão séria estava acontecendo à alguns passos dali a deixava nervosa.

– Ela vira conosco! Sou sua responsável, não permitirei que nada de mal lhe aconteça! – respondeu alternando o olhar entre as duas jovens. – Agora vamos! Eu irei na frente com Katherine, você comunica as demais irmãs! – dizendo isso, Madalena saiu andando com largas passadas, arrastando consigo a garota.

– Irmã Madalena, o que faremos? – sentia-se confusa. Nunca participara de uma missão de apaziguamento antes. Já havia visto várias lutas nos poucos anos antes de ir viver no convento, quando era mais nova. No entanto, nunca se envolvera em nenhuma para saber o que fazer para apartar os duelantes. Ao menos imaginava que nunca se envolvera em nenhuma. Suas memórias antes dos 10 anos de idade eram nubladas e ela sabia que muita coisa estava perdida em seu inconsciente.

– Vamos colocar um pouco de bom senso na cabeça destas almas perdidas! – respondeu em um bufo. Não gostava de imprevistos ruins e complicados como aquele. Eles sempre surgiam no pior momento possível, nunca durante uma tarde calma, quando estivesse cem por cento disponível para resolver qualquer coisa.

Com largos e rápidos passos, as duas mulheres já se encontravam dentro de uma roda agitada, formada por alguns dos cidadãos daquela pequena cidade. Todos humildes camponeses e comerciantes que gritavam para os cavalheiros no centro de toda a confusão. Alguns berravam para que parassem com a briga, outros incentivavam, pedindo para que continuassem e jogassem um ao outro para longe dali.

– O que está acontecendo aqui? – gritou Madalena, assim que ela e Katherine se posicionaram frente ao grupo, a poucas passadas dos dois homens que esgrimavam no centro.

– Irmã! – uma mulher tocou-lhe o braço. – O senhor Ian está duelando com um jovem forasteiro!

– Isso eu posso ver, mulher! – respondeu grossa. Ela queria saber o motivo, e não o obvio que ela podia ver com os próprios olhos. – Me diga o porquê de duelarem para que eu possa fazer algo! – enquanto esperava que alguém lhe respondesse, aproveitou para olhar ao redor e percebeu que as demais irmãs já haviam chegado ao centro da confusão. Logo poderiam começar a agir.

– Parece que o forasteiro esta procurando por uma donzela! – respondeu uma outra mulher ao lado delas. – Não sei quem é! Mas ele a confundiu com a prometida do senhor Ian! – ela alternava o olhar entre a freira e Katherine. – Isso acabou gerando um desentendimento entre os dois e, para defender a honra da amada e a dele próprio, o senhor Ian está duelando com o forasteiro agora!

– Mas que grande besteira! – Madalena começava a se mover na direção dos dois, sendo acompanhada pelas demais freiras.

– Eu acho um pouco romântico… – comentou Katherine enquanto era arrastada para o meio da confusão. Percebeu que a freira havia ignorado o seu comentário. Contudo, não podai evitar de realmente achar a situação um tanto romântica. Duela por causa de uma dama era algo sempre contemplado em histórias de amor. Katherine desejava um dia poder usufruir desse amor que tanto lia nos três livros de romance que ganhara de uma jovem andarilha que certa vez pernoitara no convento.

Enquanto observava Madalena e as demais irmãs tentarem chamar pela razão dos dois cavalheiros, Katherine ficou observando a cena todaem silêncio. Osenhor Ian ela já havia visto algumas poucas vezes, no dia em que fora encontrada pelo frei Joaquim e durante as visitas que aquele senhor fazia ao convento para levar alguma doação ou para pedir por bênçãos. Contudo, não conhecia o garoto com quem ele duelava.

Deu um passo para frente, tentando ver melhor o rosto do rapaz. Ele possui cabelos ruivos com mechas alaranjadas. Katherine nunca havia visto alguém com uma cor de cabelo tão singular e, ao mesmo tempo, tão bela. Estreitou os olhos, tentando melhorar a visão. O garoto, no meio de uma defesa, virou o rosto e seus olhos se cruzaram. Katherine e o forasteiro se encaravam intensamente. Os olhos verdes como jade do rapaz pareciam presos aos olhos azuis safira da garota. A jovem prendeu a respiração e levou a mão ao peito, seu coração parecia dançar dentro dela. O forasteiro era o homem mais belo que já vira na vida. Ele possuía uma fisionomia delicada como a de um nobre e ao mesmo tempo revelava traços másculos e maduros como de um homem feito.

Katherine baixou o olhar quando sentiu o sangue subir-lhe o rosto. Por que se sentia tão encabulada? Não estavam fazendo nada demais. Ela estava simplesmente observando a confusão e queria conhecer melhor um dos autores de toda a baderna. E pelo o que podia imagina, o forasteiro, por sua vez, queria saber quem era a enxerida que não parava de encará-los de perto, sem fazer nada. Deveria ser isso apenas. Então, por que se sentia sem jeito diante do olhar dele?

Assim que desviou os olhos ouviu o barulho da pancada do metal contra algo macio, o som foi seguido de um dolorido gemido. Katherine levantou os olhos exaltada e viu o sangue jorrar do ombro direito do rapaz. Soltou uma exclamação alta de terror e levou as mãos à boca. Não queria nem um pouco que aquele forasteiro se machucasse.

– Senhor Ian! Não está nos ouvindo? – gritou a irmã Madalena. – Mandei largar esta espada em nome do Senhor! Pare com isso! – deu mais um passo a frente, novamente arrastando consigo a jovem. – Não vê que o rapaz já desistiu? Não cometa mais pecados, senhor Ian! Não o assassine!

– Eu não vou assassiná-lo, irmã! – respondeu entre um golpe e outro. – Quero apenas que este infeliz aprenda uma dolorida lição! – por poucos centímetros ele não arrancara a orelha do forasteiro, por muita sorte o rapaz conseguira bloquear o golpe a tempo. No entanto, o golpe quase certeiro fizera Katherine soltar um rápido grito de exasperação pelo jovem.

– O senhor ainda não aprendeu a perdoar, senhor Ian? – aproximou-se ainda mais, Madalena estava prestes a segurar o braço daquele homem alto, loiro e musculoso.

– Não aprendi! Ele me afrontou, desejando levar de mim a minha mulher! – desferiu um golpe pesado sobre a cabeça do forasteiro, o qual aparou a força do ataque com dificuldade. – E se a senhora se envolver na briga, também terá alguns membros decepados, como esse rapazola logo terá!

– Senhor Ian! – a freira parou em um sopetão, sentindo-se ofendida com a ameaça do burguês. Logo depois, Katherine sentiu a irmã Madalena puxá-la um pouco para trás e depois, afrouxar o aperto em seu punho. – Katherine, fique aqui! Vou até as outras irmãs decidir como abordaremos o senhor Ian! – bufou. – Com toda certeza este senhor está descontrolado! – encarou a jovem com um olhar sério e impositivo. – E a senhorita não se atreva a se envolver na briga! Fique aqui e impeça que alguém mais se envolva neste duelo sem sentido! – dizendo isso, soltou a garota e circundou os dois duelistas, indo se encontrar com as demais freiras posicionadas ao redor.

Enquanto observava tudo, sentia-se cada vez mais apavorada pelo jovem que enfrentava o forte burguês. Não sabia explica o porquê, mas alguma coisa naqueles olhos a havia fascinado. De uma forma estranha e inexplicável, ela se sentia ligada a ele, como se fossem destinados a algo ou, simplesmente, fossem antigos conhecidos.

Viu Ian se abaixar ao aparar um golpe de espada do forasteiro, porém, a defesa chamara a atenção de Katherine, o golpe havia sido fraco, o garoto ferido não possuía mais energia para atacar com força, então, por que o senhor burguês se abaixara daquele jeito?

A garota baixou o olhar e percebeu a mão livre de Ian escorregar para dentro da bota e puxar algo brilhante. Uma adaga! Ele iria atacar o forasteiro com duas armas, enquanto que o pobre coitado possuía apenas uma e estava em piores condições do que o burguês. Aquilo era covardia!

Sem pensar duas vezes, Katherine se atirou contra Ian, o qual, pego desprevenido, caiu ao chão junto com a garota. Com uma agilidade, que a própria jovem desconhecia ter, agarrou a adaga e a atirou longe. Depois tentou se arrastar até a espada e arrancá-la das mãos fortes de Ian. Contudo, assim que agarrou parte da bainha, sentiu algo prender seus cabelos e puxá-los para trás. Ela olhou para o lado e viu uma mão agarrando-a, obrigando a se curvar e expor completamente o pescoço.

– Como se atreve garota insolente! – arrancou a espada da mão frouxa de Katherine e puxou-lhe os cabelos com ainda mais força. – Vou lhe dar a devida lição antes de cuidar daquele forasteiro! – levantou-se, trazendo consigo Katherine. – Eu deveria ter te tornado uma escrava ou simplesmente ter te matado quando a vi! Uma criança abandonada na cidade, durante a época de fartura, é mau presságio para quem a encontra! – aproximou a espada, fazendo um leve corte no pele da jovem.

– Senhor Ian! Largue a menina! – gritou Madalena em desespero. – Largue-a, senão terei que prendê-lo na sala de purificação, e somente Deus sabe por quanto tempo ficará lá! – tentou ameaça-lo. Não adiantava tentar se aproximar e arrancar Katherine das mãos dele. Era muito arriscado. A lâmina estava próxima demais do pescoço da garota. Ele poderia matá-la em questão de segundos.

– Cale-se! – gritou nervoso. – Desde que a vi, só me atingiram desgraças! Encontrei prejuízo atrás de prejuízo em meus negócios! Perdi minha primeira esposa! A segunda fugiu com um comerciante. E agora, a terceira corre o risco de ser levada por este forasteiro! – berrava a plenos pulmões para que todos o ouvissem.

– O senhor não foi o único! O frei Joaquim estava junto com o senhor! – apontou um dedo acusador. – Aliás! Foi ele quem acolheu a garota e lhe deu toda a compaixão e todo o carinho do mundo! Você é o culpado por seus próprios desastres! – ergueu as mãos aos céus. – São castigos divinos por seus pecados! Talvez a garota fosse a sua chance de rendição! Mas, você desperdiçou tudo, julgando-a e a abandonando novamente!

– Chance de rendição? – riu descarado. – Não fui o único a cair em desgraça pelas mãos sujas dela! Veja o frei Joaquim! Ele a acolheu e o que recebeu em troca? A morte! – girou a espada no ar, por pouco acertando o jovem forasteiro que tentava se aproximar sorrateiramente do burguês.

– Ele morreu porque a hora dele havia chegado! – Madalena havia percebido a aproximação do rapaz e rezava para que ele conseguisse arrancar Katherine das mãos de Ian enquanto ela tentava a manter a distração com aquela conversa impura pela raiva vinda do burguês.

– Chegou porque a acolheu! – voltou a posicionar a espada sobre a jovem. – Chega de discussão! Tenho trabalho a fazer! – riu jocoso e encarou Katherine nos olhos. – Encontre seu julgamento menina! – gritou enquanto descia a lâmina em direção ao pescoço desprotegido da garota.

Como toda aquela confusão havia se voltado contra ela no final? Sempre se envolvia de impulso e agora iria pagar pela atitude impensada. Ao menos o jovem forasteiro estaria a salvo se ele aproveitasse a oportunidade para fugir dali. Katherine fechou os olhos, se preparando para a morte fria que a esperava. No entanto o corte não lhe atingiu o pescoço. No lugar de sentir a ferida, a garota ouviu o som agudo de lâminas se chocando. Abriu os olhos assustada e viu a espada do forasteiro bloquear o caminho da do senhor Ian.

– Sinto muito senhor, mas não permitirei que faça isso! – e juntando as forças que lhe restavam, empurrou com a sua a espada de Ian, o qual, surpreso, deixou que o objeto voasse para longe de sua mão. E com a outra mão livre, o rapaz puxou a garota para trás, tirando-a do meio do conflito. – O senhor pode me ferir e até me matar se desejar e se conseguir. Porém, não vou deixar que machuque essa dama! – posicionou-se protetoramente entre ela e o burguês.

– Já chega! Muito sangue já foi derramado aqui! – Madalena correu até o burguês e puxou os braços do homem para trás, o prendendo em seu aperto forte. A freira poderia já ser uma senhora, no entanto era robusta e ainda possuía muita força nos músculos. – Irmãs! Ajudem-me a deter este senhor! – chamou pelas demais enquanto tentava deter o contorcionismo do burguês que tentava escapar dela. – E teriam dois rapazes fortes que poderiam nos ajudar a levá-lo até a sala de purificação no nosso convento? – dito isso, dois homens altos e vigorosos se desprenderam da multidão que assistia a tudo pasma e correram até a freira, agarrando o burguês pelos dois lados, impedindo-o de fugir. – Muito obrigada! – agradeceu enquanto o soltava e se dirigia até Katherine e o forasteiro. – E muito obrigada a você também por tê-la defendido, meu rapaz! Vocês dois estão bem?

– Eu estou, irmã… – respondeu enquanto olhava para o próprio corpo. Logo depois, voltou o olhar para o forasteiro. – Mas acredito que ele não esteja tão bem assim. – apontou para o ferimento no ombro direito do rapaz.

– Bobagem… Estou ótimo! – respondeu com um sorriso singelo no rosto.

– Não seja tolo rapaz! Está sangrando… – aproximou-se do ferimento e começou a analisá-lo com cuidado. A freira conseguia admitir que a ferida não fora tão profunda, mas, da mesma forma, estava com um aspecto feio. Precisava ser tratada o mais breve possível. – Venha cá… – puxou-o com delicadeza para mais próximo e encostou a sua testa na dele, sentindo a temperatura. – Hm… ainda não está febril, mas acredito que logo ficará! A ferida está feia, meu caro rapaz! Precisa ser tratado! Venha conosco até o convento que lá nós possuímos os medicamentos necessários. – olhou para a garota ao seu lado. – Katherine, ajude-o. Vou pedir para que as outras irmãs se encarreguem de terminar as compras enquanto eu os acompanho. – dito isso, andou até as demais, levando poucos segundos para decidir tudo entre elas.

Assim que voltou aos cinco que iria acompanhar de volta ao convento, viu Katherine ajudar o forasteiro, passando o braço bom sobre seus ombros e suportando parte do peso dele. A aproximação da garota com o jovem não a agradou muito. Katherine deveria se manter pura. Homens poderiam corrompê-la com facilidade. Suspirou em desagrado e começou a caminhar ao lado deles. O rapaz parecia ser bom, talvez não influenciasse a inocente garota. Olhou para trás e viu os dois homens arrastando o senhor Ian. Bufou assim que seus olhos se cruzaram com os dele. Aquele burguês iria aprender uma bela lição.

 

 



{agosto 3, 2011}   Significado e poder do nome

Minha mãe, certa vez, me mandou um e-mail sobre o significado/poder dos nomes. Algo relacionado com os arcanos.

Eu fiz o teste (http://www.taroterapia.com.br/arcano/cap.html)… Achei o resultado extremamente interessante, ou seja, adorei!

Contudo, não pude deixar de fazer anotações mentais para cada coisinha que lia (com certeza devo ter um problema sério!)

Meu Arcano Pessoal é:

14 – A TEMPERANÇA

Palavras-Chave:

Alquimia e Auto-Transformação

Acontecimento marcante a nível psicológico aos 14 anos; – (Hã? O que aconteceu comigo aos 14 anos? o.O)
Moderação e ponderação; (opa! 08 ou 80 não serve? Vou usar esse teste de desculpa quando extrapolar em algo)
Espírito indagador; (ah tá! Por isso que eu fiz jornalismo?)
Ciência e tecnologia podem atrair vc; (mas a tecnologia e a ciência me ODEIAM!! Mas, amo nerds! Talvez seja isso…)
Motivação pessoal; (onde está essa motivação quando acordo às 05:20 da matina?)
Precisa trabalhar sua parte emocional conflitos; (hehehe… Mas eu adoro ser explosiva!)
Sempre precisa esperar; (não gostei disso… ¬¬)
Natureza íntima elétrica; (opaaaaaaaaa!!! Cuidado comigo! Dou choque! E a Carol e a Bia sabem muitoooooo bem disso!! hauahuahau)
Deseja ver coisas diferentes; (always baby!)
Poder de cura pelas mãos ( Reiki, Cristais, Passes Magnéticos,   etc); (não funciona muito quando estou com dos de cabeça… MAS GOSTEI!)
Inconformismo; (É ISSO AÍ!!!)
Transforma os ambientes por onde passa; (Hm… Sabe que eu adorei esse item?)
Mente aguçada; (eu diria conturbada, mas gostei mais do aguçada!)
Deseja clareza por parte dos outros; (é isso aí! Melhor explicar tudo direitinho, se não… Vamos entrar num conflito!)
Sintonizado com as tendências mundiais; (curtir k-pop e j-pop é um exemplo?)
Amigo(a) e participativo(a); (wooow… que fofa que sou XD)
Relações afetivas tem sucesso se baseadas na amizade mútua; (tópico interessante… Isso quer dizer que tenho ótimos amigos, ou que eu devo começar a namorar meus amigos? X)
Luta pela liberdade; (Tô me sentindo o Mel Gibson em Coração Valente!)
Quer alçar vôo e atingir o alto; (yeaaaaaaaaaah, baby!)
Comportamento às vezes utópico; (é que eu curto uma fantasia, sabe?)
Telepatia; (isso explica muitaaaaa coisa… hm…)
Quer experimentar coisas novas; (again… Always, baby!)
Precisa estipular metas; (Metas? NÃOOOOO!!! Palavrinha assustadora!! Mas, espera aí! Eu já faço isso! Então… Belezinha!! hehe)
A saúde pode ser muito testada; (não gostei disso não… ¬¬)
Princípios firmes; (são uma rocha! Quase uma muralha da China se for analisar bem!)
Sensibilidade a sons; (então… NÃO VENHA COM MÚSICAS PORCARIA PERTO DE MIM!!!!!!!!!)
Apreciador de uma boa música; (Viu? BOA música é sempre bem vinda aos meus ouvidos. CHEGA DE PORCARIAS!!!)
Quer agradar a todos; (Que gracinha que eu sou… XP)
Observação; (não adianta se esconder! Estou observando TUDO e TODOS! MUAHAHAHAHAHA)
Não pode estar preso a dogmas ou doutrinas; (Gosto de liberdade, lembra? Isso vale aqui também! hehe)
Funcionalidade; (olha só! Sou funcional! hehe)
Inventividade; (inventar histórias, serve? hauahauahua)
Cooperativismo; (é isso aí, gente!! O mundo precisa de mais cooperação!)
Pode cuidar ou assumir a responsabilidade de alguém doente na família; (vou virar enfermeira e depois me candidatar a presidente da nação localizada na minha casa!)
Confronto de idéias; (pois é… Vocês não fazem ideia de como é a minha cabeça! É assustadora…)
Teimosia em relação às suas idéias; (CARACA! Sou teimosa até nisso??!!)
Deseja superar-se nas tarefas; (aaaah… então, é daí que vem o meu probleminha com estresse?)
Incondicionalidade; (que lindo! Sou incondicional! XD)
Atenção à área neurológica, muscular, glândulas, próstata, cabeça e   pressão; (mais alguma coisa? Acho que esqueceu de falar alguma coisa ¬¬)
Apartidário; (Isso serve para tudo, ouviram? É legal ficar em cima do muro! É dali que eu observo TUDO e TODOS!! Muahahahahahah…)
Segue sua cabeça e é seu líder; (Oh, yeah!!!)
Cuidado com a intolerância. (intolerância? Que intolerância? Sou a tolerância em pessoa! E o meu atual sarcasmo entra nessa…)



{julho 22, 2011}   Contos Continuados

(Ainda Precisamos de um título para o capítulo e um nome para a história)

Eu não sabia exatamente o que fazer. Ele estava ali, parado na minha frente, bloqueando minha fuga. Ele era um deus, e eu o amava. Ele era, agora, meu inimigo, e eu tinha que enfrentá-lo…

Como atacar parte de si mesmo? Meu coração já era dois, e a outra metade batia dentro do homem prestes a me destruir. Mesmo sabendo o quanto iria doer, eu tinha que detê-lo, ou o resto do mundo pagaria por minha covardia. No instante em que ele disparou em minha direção, invoquei meu anjo protetor, e senti as asas se abrindo dolorosamente nas cicatrizes antigas das minhas omoplatas.

Ele me olhou sobressaltado. Sabia o que eu estava prestes a fazer. Meu coração disparou dentro de mim. Um movimento dele. Um olhar pesaroso de minha parte. Silêncio.

Um trovão retumbou no ar e eu o senti dentro de mim. Fechei os olhos e puxei o poder que me fora concedido. Toda aquela força agora pulsava sob minha pele e então encarei o deus paralisado de medo diante de mim.

Ele podia ser um deus. Ele podia pensar que o meu amor iria me pacificar. Seu único erro foi esquecer quem era Eu.

Uma brisa leve passou por nós, trazendo consigo o agradável aroma das Damas da Noite. O céu estrelado estava aberto sobre nós. Sorri com a melodia natural das folhas se arrastando com o vento e agradeci a penumbra, ela facilitaria a minha sina. Vi que ele retribuía meu sorriso, no entanto, diferente de mim, ele começava a sorrir travesso, confiante… Entrei no jogo.

Relaxei os músculos por breves segundos, antecipando o meu impulso para a batalha. Ri como em uma atuação divertida, e joguei-lhe um beijo. Assim que ele piscou, confuso com minha atitude antagônica ao meu olhar sofrido, eu ataquei!

Lancei-lhe uma lufada de ar com minhas asas. Ele foi atingido em cheio e tombou para trás. Eu só queria assustá-lo um pouco.  Ainda tinha esperança, mesmo que ínfima e quase nula, de não ter de enfrentá-lo.

Ele olhou para mim e sorriu. Sabia o que eu estava pensando. Eu podia ver em seus olhos claros, que ele pensava o mesmo. Nossas mentes estavam em sintonia. Uma só mente, um só coração.

Ele não podia ignorar este sentimento! Não era possível que só eu percebesse o quanto estávamos conectados.

– Theon! Pára! – eu exclamei, com mais esperança do que certeza sobre o que aconteceria. – Sabe que eu vou ter que impedir você! Não percebe que isto vai nos destruir?

– Não se você não deixar de ser tão… Tão…

– Correta?! – perguntei, impaciente.

– Anti-progressista.

– Escravizar os humanos não é progresso!

– Retrocesso é que não é!

Então ele baixou a cabeça, passando os dedos pelos cachos loiros, com certa frustração. E com um suspiro ele sussurrou:

– Eu amo você. Mas não posso ir contra a minha missão… – seus olhos eram ao mesmo tempo assassinos e esperançosos – É a sua última chance! Ou você sai do meu caminho, ou eu acabo com você!

– Então, venha! – o enfrentei com mais confiança na voz do que eu realmente sentia. – Vamos ver quem acaba com quem. – apesar da falsa coragem, eu sentia dor. Meu coração sangrava a cada palavra que eu pronunciava.

Theon pareceu assustado, perdido com a minha resposta. Eu sempre o surpreendia. No entanto, ele também sempre me desvendava depois. Ele viu que eu me manteria determinada a impedi-lo, assim como ele, não desistiria da missão.

O meu Deus me atacou! Sem chance alguma de me defender, ele me atingiu no estômago e o impacto de seu golpe de luz me jogou longe. Cuspi o sangue que havia se acumulado em minha boca e ergui a mão, invocando dois dos quatro elementos que eu controlava.

Fiz brotar pilares grandes e pontiagudos de terra sob seus pés e joguei sobre ele agulhas de água que acabara de invocar do rio próximo dali.

Ele me encarou contrariado. Estava sem guarda contra meu ataque e conseguiu se desviar de minhas agulhas de água. Mas não dos pilares de terra. Notei que seu braço direito sangrava. Aquilo doeu. Se mais em mim, do que nele, não saberia dizer.

Ele lançou outro raio de luz, do qual me desviei com dificuldade.

– Que ninja. – ele zombou orgulhoso.

– Você nem faz idéia. – respondi arrogante.

Queria acabar logo com aquilo. Essa contrariedade em mim, amor e ódio, me machucava mais que os golpes violentos que ele lançava sobre mim.

Um raio de luz atingiu minha perna esquerda com tanta força que senti o golpe por todo o corpo e caí de joelhos no chão.

Ainda tentava me por de pé quando, de repente, ele disparou na minha direção. Eu estava completamente indefesa.  Ouvia o ar sibilando conforme ele voava até mim. Meu coração disparou e senti medo, por mais que não quisesse admitir.

Num baque, nossos corpos se chocaram e, quando voltei à consciência, ele estava montado sobre mim, imobilizando-me completamente.

Um de seus braços segurava a minha cabeça contra o chão.

Era isso. Era o fim.

Um raio de luz era o bastante para evaporar meu crânio.

Fechei os olhos, mas ao invés de dor, senti seus lábios nos meus, num beijo intenso.

– Ainda não consigo… – ouvi-o sussurrar, bravo consigo mesmo.

Uma pancada na cabeça e tudo ficou escuro.

Uma luz forte e irritante fazia meus olhos doerem. Era agora o meu fim? Ele iria me atacar? Mas, por que a demora? Abri meus olhos por puro instinto curioso. Me vi deitada na grama, sob a luminosidade intensa do sol à pino. E tudo me veio à cabeça em uma avalanche de lembranças da luta de ontem à noite.

Há quanto tempo estive desacordada? E como ele pôde me deixar ali largada ao relento? Suspirei cansada. Ao menos ele me permitira viver… Sentei-me devagar, meu corpo doía. Olhei ao redor. Tudo estava diferente.

A paisagem estava mais bela, praticamente perfeita. Tentei ver mais detalhes do lugar, mas minha cabeça latejou em protesto. Não estava completamente curada do golpe. Levei uma das mãos à testa, como se isso fosse controlar a dor…

– Dor de cabeça, Alicia?

Aquela voz fez meu coração acelerar freneticamente.

– Tomei a liberdade de trazê-la para cá. Não podia largá-la naquele lugar. Além disso, é mais seguro para os meus planos tê-la por perto.

– Onde estou, Theon? – sussurrei sem ousar encará-lo ainda.

– Bem vinda ao meu lar! Bem vinda ao meu Éden, ao Olimpo dos Deuses! – ouvi-o rir com a minha surpresa.

Levantei-me ainda em choque. Não era possível! O Olimpo dos Deuses era proibido aos outros que não eram, como o próprio nome diz, Deuses.

– Mas você vai se encrencar por isso! – comentei receosa.

– Vale à pena. – ele sorriu e piscou para mim. Veio em minha direção e me abraçou forte. Senti seus lábios entre os meus.

Puxei-o mais para perto, com ímpeto. Esqueci a batalha anterior, esqueci onde estávamos. Só queria estar com ele. Ele me tornava completa.

Alguma coisa nele me prendia totalmente! O desejo por ele era quase incontrolável, como se suprimisse toda a minha capacidade de pensar em outra coisa que não seus braços fortes prendendo-me tão maravilhosamente contra seu corpo.

A pressão do beijo aumentou, ritmada pelas batidas aceleradas dos dois corações.

Pulso. Arrepio.

Então, por um segundo, nos afastamos ofegantes. Eu sorri, olhando-o nos olhos, meio desfocados pela intensidade do beijo.

Seu sorriso era tão lindo.

Então, de repente, vi algo que mudou tudo.

Apenas um reflexo de alma contida naqueles olhos azuis. Uma lasca, somente.

Mas uma lasca que revelou presunção, como se aquilo fosse uma vitória para ele. Não era uma expressão de amor.

Afastei-me bruscamente, quase assustada com o ser que se transmutava diante dos meus olhos. E completamente frustrada com a minha burrice.

Ele me olhou atordoado num primeiro momento, e eu lhe dei as costas. Eu pulsava de raiva. Bombas explodiam em minha garganta querendo sair em palavras.

Quando o encarei novamente, sua expressão já se tornara furiosa.

– Você é completamente maluca! – ele atirou, frustrado.

– Eu sou prisioneira! – gritei.

Toda fúria se transformou em compreensão, e ele disse:

– Não tive outra escolha. – sua voz era quase um sussurro. Ele estava envergonhado do que tinha feito, mas, com certeza, não o bastante para desfazer.

– E imagino que este beijo foi um prêmio de consolação pela perda da minha liberdade? – disse sarcástica.

– Foi só um bônus pessoal… – ele respondeu com um sorriso travesso. – Mas não ouvi suas reclamações…

– Vai se ferrar! – sibilei.

E antes que pudesse fazer qualquer coisa, eu já lhe dera um soco na boca, e ele caiu no chão.

Atordoado com o golpe, Theon permaneceu sentado por mais alguns segundos, com a mão direita estancando o ralo sangue que saia de um corte nos lábios. Vi em seus olhos que ele estava incrédulo com o que eu havia feito.

Aproveitei e corri para onde eu julgava ser a saída. Mas, tudo ali era igual! Fiz minhas asas trabalharem novamente e levantei vôo. Talvez eu tivesse mais chances se procurasse pelo alto.

Elevei-me o máximo que pude e vi, dentre uma névoa densa e baixa, ao norte do Éden, uma gigantesca porta dourada. Disparei em sua direção, mas algo me impediu! Theon flutuava no ar comigo e agarrava o meu tornozelo com força.

– Me larga! – gritei enquanto invocava lâminas de vento para atingi-lo. No entanto, ele percebeu o que eu estava fazendo.

– Ah não! Aqui no meu Éden, não Alicia! – e com força ele me puxou pelo tornozelo para baixo, me atirando com brutalidade em direção ao solo.

Não pude refrear minha queda. Não pude evitar o impacto…

Choquei-me com o chão e senti algumas costelas se partirem. Droga! Cuspi o sangue acumulado em minha boca e rolei para o lado, tentando me sentar.

– Desista! Você não pode me derrotar, Alicia! – pousou ao meu lado, olhando-me com olhos sérios.

– Eu te atinjo com água e terra, você me dá uma porrada na cabeça… – cuspi um pouco mais de sangue. – Eu te ataco com ar e você detona três costelas minhas… – sorri desdenhosa. – O que você fará comigo se eu usar o fogo? Vai mesmo me matar?

– Vou… – respondeu, aparentemente, sem muita confiança.

– Duvido! – ri e com todas as forças que eu ainda possuía, me atirei sobre ele, me engalfinhando com o Deus e, invocando o fogo do calor da luz. Eu o derrotaria com sua própria fonte de energia!

Theon urrou. Assutei-me ao pensar que poderia machucá-lo de verdade, mas era preciso. Continuei agarrada nele, enquanto meu corpo emanava o fogo revolto. Ele urrou mais uma vez e logo se calou.

Olhei para cima, tentando visualizar seu rosto a fim de perceber suas intenções. Ele me encarava sério. Nenhum sinal de dor.

– Pára com isso! – ele soltou meus braços de seu corpo, com facilidade.

Olhei para ele por inteiro. Nenhum sinal de queimaduras. Notando minha cara de espanto, ele se defendeu.

– Eu sou um Deus. Me curo extremamente rápido. – seu sorriso irônico me desmanchou por dentro.

– Então por que gritou?

– Porque me mata ter de lutar com você!

– Então não lute. Entregue-se

Ele me encarou de modo sombrio

– Você sabe que não é tão simples, Alicia!

– É só você querer…

– Não! Não é! Se eu não fizer isso, se não cumprir minha missão, eu morro!

– Como assim? – o medo tomou conta de mim. – Do que você está falando?

– Nada. Esquece. – seus olhos estavam tristes.

Ele se afastou, passando as duas mãos pelo cabelo.

– Não. Começou, termina! O que está acontecendo? Por que você está agindo assim?

– Porque eu sou assim!

– Não, não é! Você nunca foi um assassino.

– Mas se eu não me tornar um, o Zion me mata! – ele berrou descontrolado.

– Quê? – dessa vez, quem se descontrolou fui eu. – Caramba, Theon, me explica direito o que está acontecendo!

Silêncio. Ele se afastou mais, as mãos puxando os cabelos, desesperado. De repente, ele estacou e virou no lugar, me encarando. Em um só impulso, ele veio em minha direção e me agarrou. Seus braços passaram por trás das minhas costas e se fecharam com força.

– AAAI! – gritei ao sentir as costelas quebradas sendo pressionadas. – Minhas costelas…

– Cala a Boca! – Theon me deu um beijo apaixonado. Esqueci de onde estava. tudo que importava era seus braços musculosos me prendendo a ele, seus lábios viajando nos meus.

Em algum momento no meio do beijo, eu apaguei. Não sei o que Theon fez comigo, talvez um feitiço…

Mas quando acordei, estava deitada em cobertores macios a um canto da sala. E Theon havia desaparecido. Pelo menos, desta vez, ele me derrubara com um beijo, não com uma pancada.

Levantei-me determinada a sair dali antes que mais alguém aparecesse para me criar problemas. Eu precisava voltar logo à terra, meu elemento e fonte de energias. No Éden eu me sentia totalmente indefesa.

O único problema é que não havia mais portas na sala. Nem janelas. Estava tudo diferente.

E Theon não me deixara acordada para ver como ELE conseguia sair. Porque, até onde eu sabia, semi-deuses não podiam se teletransportar.

Mas ele sabia voar.

Olhei para cima pela primeira vez desde que acordara. Não havia teto, apenas uma névoa branca e densa.

Abri um sorriso e as asas e disparei para cima.

A névoa era fria e úmida, dificultando o trabalho das penas, que começavam a ficar encharcadas.

Mesmo assim continuei seguindo. Sem enxergar nada a minha volta e sem fazer idéia de para onde me dirigia…

Aquilo parecia não ter fim!

Eu já voava fazia quase uma hora e não agüentava mais. Estava com frio e cansada! E queria chegar logo em casa.

Parei um segundo para recuperar o fôlego e aproveitei o descanso olhando em volta e recalculando direções. Mas a minha volta e acima de mim, só existia branco.

Olhei então para baixo e meu coração disparou. De susto e decepção.

A sala que eu deixara havia quase uma hora estava a poucos metros de distância. Deixei-me flutuar até o chão e me encolhi assustada. Como faria para sair dali?

Foi então que ouvi um baque distante, como se alguém estivesse esmurrando uma parede à prova de som. Aproximei-me da parede que agora tremia no instante em que uma fina rachadura surgiu.

E então alguém se materializou a minha frente.

– Caliab! – exclamei, atirando-me em cima dele, extasiada por ver uma cara amiga.

Ele me envolveu nos seus braços, bastante preocupado. E, enquanto eu sentia a dor nas costelas me abandonar, ele disse:

– Oi Alicia. Pronta para ir embora?

Apenas sorri, sentindo-me deliciada com o som de liberdade que aquela pergunta produzia.

Ele pegou em minha mão e me conduziu, com certa velocidade, até a saída que havia criado. Assim que saímos do Éden, pude ver o estrago que meu amigo havia feito em todo o Olimpo.

Não pude deixar de rir diante da cena. Paredes arrebentadas, estátuas espatifadas e todos os Édens expostos por buracos e portas arrombadas. Com certeza, para me resgatar, o Caliab arranjara vários Deuses como inimigos! Que amigo dedicado eu tinha…

Enquanto divagava, senti que ele aumentava a pressão em minha mão. Apesar da força, o seu toque era delicado e carinhoso, totalmente diferente do aperto quente e possessivo de Theon.

Acabei me surpreendendo com a comparação que acabara de fazer. Caliab e Theon eram completamente diferentes! Um era o meu mais estimado amigo, o outro… Era atual inimigo, mas que eu amava… Não era justo compará-los!

Envergonhada pelos meus pensamentos bestas, desviei o olhar daquela mão terna sobre a minha e o encarei de relance. Foi neste instante que eu percebi.

Devido a minha negligente distração, eu não havia visto aquela fisionomia séria e dura no rosto de Calib. Notei, logo em seguida, que havíamos parado. Segui a direção do olhar de meu amigo e vi o que ele encarava com tanta raiva e preocupação.

Theon estava de pé, na nossa frente, de braços cruzados e nos observando com olhos irados de ciúmes.

– Para onde você pensa que via levá-la, Caliab?

– Para longe de você, com certeza! – respondeu no mesmo nível de afronta. Eu pude sentir o quanto cada palavra deles era agressiva no tom.

– De mim, você não a tira!

E o paraíso tornou-se, novamente, o inferno!   

Legenda:

  • Roxo: Fabi
  • Azul: Nara
  • Vermelho: Bia

(ainda não sabemos quando esta história será continuada. Enquanto isso, curtam como conto! hehe)



et cetera
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