World Fabi Books











{agosto 22, 2013}   O Destino da Escolha

5º Capítulo

Não sigas por este luar, minha criança…

 

 

Mayara acelerou sua moto. Não se importava mais com multas ou acidentes, apenas queria esquecer, fugir daquela dor em seu peito.

– Maldito! Por que me tortura tanto? – a cada palavra, acelerava um pouco mais a moto. – Por que eu… O que? – brecou bruscamente, quase tinha em outra moto que saia do parque.

– Ei, ei, ei! Calma madame! Para quê a pressa? – o motoqueiro parou e desceu de sua moto, encarando Mayara.

– Meu Deus… Perdoe-me… Juro que não o vi senhor! – também desceu de sua moto e foi até o motoqueiro. – Sinto muito! O senhor está bem? – tirou o capacete.

– Estou perfeitamente bem. Não se preocupe senhorita. – quando também tirou o capacete, pôde sentir o perfume que ela emanava e logo o reconheceu. – Por favor, não me chame mais de senhor, chame-me de Bruno!

– Oh! Sim, sen… Quero dizer… Bruno. – deu um sorriso constrangido. – E se desejar, pode me chamar de Mayara. – estendeu a mão para cumprimentá-lo.

– Vejo que o quase acidente valeu a pena… – comentou sorrindo ao apertar a mão dela e olha-la de cima a baixo. – Diga-me Mayara… Aceitaria beber algo com a sua quase vítima?

– Bom eu… – estava relutante. Não conhecia aquele homem e sentia um alerta incomodando dentro de si, impedindo-a de aceitar. – Não sei se devo… – deu um sorrisinho em desculpa. – Se sóbria quase o acertei, imagine o que poderei fazer se beber algo! – ambos riram do comentário.

– Oras… Podemos apenas beber um suco. Que acha? – Bruno deu um sorriso sedutor e colocou o capacete debaixo do braço.

Antes de responder, Mayara retribuiu o sorriso com menos animação do que ele. Aquele motoqueiro a estava deixando sem desculpas. E agora? Diria o que? Que tinha um compromisso? Não era de totalmente mentira, mas ele poderia perceber a hesitação que estava sentindo. Talvez… Uma bebida rápida não faria mal…

– Se é apenas um suco… Não vejo problema.

– Ótimo! – apoiou-se em sua moto. – Mas… Sinto informar que quem escolherá o lugar será você. – deu um sorrisinho culpado, enquanto erguia os ombros. – Não sou daqui.

– Tudo bem… – voltou a colocar o capacete. – Basta me seguir sem se perder.

– Não se preocupe… Não a perderei de vista… – respondeu cheio de segundas intenções. Também já estava colocando o seu capacete.

Mayara subiu na moto, deu a partida e ficou esperando que ele fizesse o mesmo com a dele. A sensação de alerta ainda persistia e resolveu não a ignoraria, apenas tentaria descobrir o porquê dela. Ouviu o motor da outra moto e acelerou a sua. Enquanto Mayara guiava sua preciosidade de estimação até uma boa lanchonete para tomarem suco, Bruno a acompanhava praticamente lado a lado. E assim que cruzaram a avenida, viu um bom lugar para pararem e estacionou sua moto próxima da calçada. Sem esperar muito, Mayara entrou e sentou em um banco no balcão, vendo que Bruno logo aparecia e fazia o mesmo.

– Hm… Até que o lugar é bem acolhedor… Você costuma vir sempre aqui? – o caçador analisava o ambiente ao seu redor.

– Costumava vir bastante para cá, mas parei. – ela também olhava ao redor, mas ao contrário de Bruno, ela não olhava para tudo com olhos analíticos e sim, nostálgicos.

– E por que parou? – pegou o cardápio de cima do balcão e dava uma olhada na variedade de sucos do lugar. – O ambiente daqui é ótimo e os preços são excelentes. Por acaso não tinha mais tempo para vir?

– Não exatamente… – ela havia pegado outro cardápio que estava ao seu lado e o olhava. – Apenas… Tinha algo mais interessante para fazer…

– Entendo… – encarou-a um pouco desconfiado e deu um sorriso. – Por acaso esse “algo interessante” seria alguém?

– O que quer dizer com isso? – Mayara desviou o olhar do cardápio e olhou-o nos olhos com intimidação.

– Apenas quero saber se desperdiçou o seu valioso tempo com algum homem… – fingiu um ar de inocência.

– Não sou obrigada a satisfazer a sua curiosidade… – respondeu seca, já totalmente desconfiada dele.

– É… Tem razão… Você não é obrigada a satisfazer a minha curiosidade… – deu um sorriso malicioso e aproximou-se dela. – Mas a questão é… Você não é obrigada, mas eu POSSO obrigá-la… – sussurrou em seu ouvido.

Mayara se levantou no mesmo instante. Agora o encarava com olhos diferentes, não era o seu antigo olhar de caçadora, mas também não era um olhar desconfiado “comum”. Eram olhos ameaçadores.

– Tente… – sussurrou, afastando-se devagar.

– O que pretende? Fugir? – perguntou com sarcasmo, sorrindo ao vê-la afastar-se aos poucos.

– Seria um desrespeito ao meu orgulho fugir de um caçador… – respondeu com um leve sorriso maroto e maldoso nos lábios.

– Você sabia? – aquilo o havia impressionado por alguns segundos.

– Suspeitava… Mas, confesso que não foi nada difícil confirmar a minha suspeita… – deu de ombros.

Bruno sorriu. Adorava ver mulheres como Mayara agirem, mostrar sua mente audaz. Não se atraia por mulheres fracas e ignorantes, que se deixavam levar facilmente por sua lábia… Sempre se aproveitava ao máximo que quisesse delas e logo partia. Mas mulheres como aquela que se encontrava á sua frente, eram diferentes. Não a esqueceria e nem a largaria tão fácil. Agora era uma presa almejada, não desistiria dela.

– Você é o caçador que vaio atrás de Marcos, não é? – seus olhos eram sérios e seu tom revelava um tom protetor, que despertou um pouco de ciúmes do caçador pelo vampiro.

– Você é rápida… – Bruno olhou-a de baixo para cima, demorando-se nos detalhes curvilíneos daquele corpo tão feminino. – Esperta… Uma ótima caçadora também…

– Não sou caçadora… – respondeu friamente.

– Impossível! Posso ver em seus olhos e… – parou no meio da frase. Algo lhe vinha à memória. – Diga-me seu sobrenome!

Mayara apenas sorriu provocadora e nada disse.

– Diga-me! Vamos! – ficou a encará-la ansioso. Mas logo percebeu, assim que ela lhe deu as costas para sair do lugar, que seria inútil continuar a esperar por uma resposta. – Você é a famosa Mayara Campelli, não é mesmo? – Mayara nada respondeu. Continuou a andar em direção à saída. – Como não percebi isso antes? – sussurrou para si mesmo, apressando-se em ir atrás dela.

Mayara foi até a sua moto e deu partida. Não tinha tempo a perder com ele agora. Tinha que descobrir uma maneira de evitar o encontro de Bruno com Marcos. Não podia entrar em guerra com o caçador ali em público e sem preparo algum. Teria que levá-lo a um lugar mais reservado para um duelo, ou encontrar uma maneira de combate-lo facilmente, como uma cilada. Ela preferia a segunda opção, pois se perdesse no duelo, deixaria Marcos à mercê daquele inescrupuloso caçador.

– Um momentinho madame! – posicionou-se no caminho dela, sem temer que ela o atropelasse. – Acha mesmo que eu a deixarei partir assim tão fácil? Quero informações!

Mayara abaixou a proteção do capacete, escondendo o seu rosto por completo e acelerou a moto sem sair do lugar. Deu um breve aceno com a cabeça, virou e partiu, deixando-o para trás, parado, completamente indignado.

– Então é esse o jogo que pretende fazer? – sussurrou, olhando-a sumir entre os carros. – Pois então jogarei com o maior prazer… – deu seu costumeiro sorriso de diversão. Adorava jogar com mulheres ardilosas. – Mas não serei mais paciente como fui hoje senhorita Campelli… Não serei mesmo… – seu sorriso mudou drasticamente para algo mais demoníaco, mais mefistofélico.

 

o_destino_da_escolha



{agosto 16, 2013}   O Destino da Escolha

(parte do capítulo…)

 

4º Capítulo

Busque pelo Sol, querida Lua…

 

 

 

– Mayara… May… Má… Maya… Yara… Aya… – o vampiro brincava com o nome da mulher, enquanto tentava pegar no sono.

– Ac’Daro… Ac’Daro… Já ouvi esse sobrenome antes. – Mayara buscava em alguns livros de lendas e mitos encontrar aquele sobrenome tão familiar para ela. – Eu já o li em algum lugar, mas onde?

Passadas algumas horas, Marcos já se encontrava em seu mais profundo sono e Mayara se encontrava exausta. Sua pesquisa não havia sido bem sucedida e estava cansada por ter acordado muito cedo. Decidiu tirar um cochilo no sofá da sala, mas assim que se deitou começou a sentir frio. A manhã estava fria e não conseguiria dormir um pouco se estivesse passando frio.

Mordeu os lábios de leve e olhou na direção da porta de seu quarto. Se quisesse descansar um pouco para aproveitar o resto do dia, iria precisar de um cobertor ou ao menos uma manta. Mas eles se encontravam apenas em seu quarto e Marcos estava lá.

Respirou fundo, levantou-se do sofá e silenciosamente foi até o seu quarto. Estava muito escuro, mas não iria acender a luz para não acordá-lo. Cautelosamente foi até o armário e, mesmo na penumbra, ela conseguiu pegar seu cobertor. Mas Quando já estava quase na porta…

– Ai!! – havia tropeçado nos sapatos que Marcos tinha deixado por ali e caído no chão. – Droga… – sussurrou tentando se erguer.

– Quer ajuda Mayara? – uma forte mão envolveu sua cintura e começou a erguê-la delicadamente. – Você está bem?

– Marcos?! – impressionou-se Mayara ao encarar aqueles olhos vermelhos na escuridão. – Desculpe… Eu… Eu não queria acordá-lo. Acabei tropeçando em algo. Desculpa pelo barulho. – recuava aos poucos para a porta. Estava assustada, pois além de não perceber a aproximação dele, ela não sabia o porquê de seu coração estar tão acelerado.

– Você não me acordou. Foi o meu sapato o culpado. – sorriu carinhosamente. – Por que entrou aqui? Esqueceu algo?

– Eu só estava com um pouco de frio! – mostrou o cobertor nas mãos. – Pode voltar a dormir. Eu vou voltar para a sala e descansar um pouco.

– Espere! – ele havia atravessado a distancia entre eles com incrível velocidade e já segurava levemente o braço delicado de Mayara. – Por que você não descansa um pouco aqui? Aposto que a sua cama é bem mais confortável do que o sofá e… Poderá me fazer companhia. Que tal?

– Eu… – Mayara se sentia perdida. Tinha esperado por tanto tempo aquele vampiro e agora que finalmente estava tão próxima dele, ela se sentia inibida. – Eu não acho que devo. Já consegui acorda-lo de seu sono, provavelmente não conseguirá dormir direito comigo ao seu lado.

Sem se importar com a insegurança e hesitação da ex-caçadora, Marcos, gentilmente, começou a puxa-la até a cama. Prendendo o olhar da humana nos seus, como se a estivesse hipnotizando. Ele a queria em seus braços. Desde o momento em que a vira nutria algo estranho por ela. Sentia como se já a conhecesse. E agora que finalmente tinha a chance de poder estar junto dela, sentia que faria de tudo para não perdê-la.

– Marcos!? O que você…? – ela se deixava levar, por mais que tentasse, sabia que não conseguiria resistir por muito tempo.

– Calma Mayara… – lentamente começou a deitá-la na cama com delicadeza incrível. – Eu apenas a estou acomodando em seu próprio leito. – pegou o cobertor e a cobriu como se estivesse cobrindo uma criança que estava colocando para dormir.

Sem pressa, Marcos ajeitou-se sobre ela, apoiando-se sobre um dos braços, enquanto que com o outro, acariciava a pele delicada daquela que desejava para si. Aos poucos, aproximou o seu rosto, esfregando a sua face na dela.

– Mayara… Poderia me perdoar pela descortesia que demonstrei até agora? – ele havia parado de acariciá-la e tinha afastado um pouco o seu rosto para poder olhá-la nos olhos.

– Não há pelo o que pedir perdão… Você não foi descortês comigo. Fui eu quem o amolei. – sabia que havia se entregado totalmente aos caprichos e agrados dele.

O vampiro deu um sorriso e antes que ela pudesse dizer algo mais, pô-se a beijar-la, começando pela testa e indo até o pescoço. Ao sentir os lábios frios do vampiro em seu pescoço, Mayara saiu do encanto de Marcos, empurrou-o para longe de si e levantou-se rapidamente da cama.

– O que há Mayara? Por acaso eu lhe fiz algo que não foi de seu agrado? – sentou-se na cama para observá-la melhor. – Desculpe se fui benevolente demais… – estendeu os braços, convidando-a para que voltasse à suas caricias.

– Não é você quem deve se desculpar. Sou eu! – pegou o cobertor e o segurou próximo ao corpo, como se aquele gesto ajudasse a evitar o convite irresistível. – Desculpe pela minha indelicadeza, mas prefiro ir descansar sozinha, vampiro. – precisava eliminar aquele clima de intimidade antes que cedesse às seduções.

– Por que me rejeita tanto? – levantou-se com um ar decepcionado por ela o ter chamado de vampiro novamente. – Por acaso me rejeita por ser um vampiro e você uma humana? – ao vê-la recuar, aproximou-se rapidamente. – Me poupe desse racismo, Mayara! – segurou-a pelo braço novamente.

– Me largue! – tentava se libertar daquelas mãos fortes.

– Não vê que eu a desejo? E será que também não enxergar que me deseja da mesma maneira? – ele a sacudia de leve, como se as chacoalhadas a fizessem acordar para alguma realidade ignorada.

– Já mandei me largar! – Mayara o empurrou com força, pegando-o desprevenido e derrubando-o. Mas antes que pudesse alcançar a porta, o vampiro prendeu-lhe os pés, fazendo-a ir ao chão.

– Além de afoita e cega, você é muito insolente, sabia? – posicionou-se sobre ela, impedindo-a de fugir.

– E você é um arrogante! – debatia-se tentando escapar. – Me largaaaaaa!

– Não! Eu a desejo Mayara Campelli! – e antes que ela pudesse escapar de suas garras, Marcos beijou-a a força, machucando de leve os lábios da mulher com os seus caninos.

– Atrevido maldito! – deu-lhe um tapa na cara, deixando seus dedos marcados em seu rosto. –Agora eu o temo e não o desejo!. – mesmo contra a sua vontade, os seus olhos encontravam-se cheios de lágrimas.

– Mayara! Eu… – afastou-se dela, assustado com a imagem chorosa da mulher que tanto desejava. – Eu… Sinto muito, não queria… – sentia-se completamente arrependido por ser o culpado daquela cena tão arrasadora para o seu coração. – Não queria deixa-la assim. Perdi o controle. Perdoe-me!

– Eu achava que você era alguém completamente diferente, senhor Ac’Daro… – comentou com raiva ao se levantar. Enxugava as lágrimas com as costas da mão. Sentia-se explorada e fraca. – Mas, me parece que estava enganada. – passou a mão pelos lábios machucados, tentando avaliar no escuro o dano causado. Felizmente não era nada sério, era apenas um corte pequeno e superficial, praticamente um arranhão que ardia.

– Eu… – levantou do chão, tentando se aproximar dela. – Eu a machuquei muito?

– Externamente não. Mas… – colocou a mão sobre o peito, como se tentasse tocar seu coração e acalmar a dor que sentia ali. Aquele aperto e aquela angústia eram sentimentos de dor, maiores do que o ardido que sentia nos lábios. – Esqueça! Volte a dormir senhor Ac’Daro. – foi até a porta, parando de costas para o vampiro antes de sair.

– Eu a decepcionei? – suas palavras estavam cheias de dor e arrependimento.

– Sim… – saiu do quarto sem dizer mais nada.

– INÚTIL! DESPREZÍVEL! – gritava consigo mesmo ao se jogar novamente na cama.

Mayara sentou no sofá. Ainda estava abatida e lutava contra algumas lágrimas que teimavam em escapar de seus olhos. Olhou para o relógio, ainda eram oito e meia da manhã, mas sentia a necessidade de sair dali. Não queria mais ficar naquele lugar, tão perto dele e das lembranças recentes que ainda queimavam seu coração.

Pegou as chaves da moto, o celular e saiu, tomando cuidado para manter tudo fechado em seu apartamento.

 

 

o_destino_da_escolha



(parte do terceiro capítulo…)

 

Fantasy, aqui vão eles!

 

 

– Tchau, mãe! – Lilith a abraçou com ternura, contendo as lágrimas que lhe ardiam os olhos. – Tchau, pai! – a garota foi envolvida por braços fortes e o ouviu limpar a garganta, um fracassado disfarce para a emoção que sentia.

– Tchau, meu amor! Se cuida, viu! – Suélen já estava chorando silenciosamente.

– Tchau, filhota! Até as férias ou antes! – Selso colocou as mãos no bolso.

– E tchau, Ely! – deu um singelo beijo na testa do irmão. Respirou fundo e engoliu o choro a seco. Não fazia sentido ceder à choradeira, afinal, ficaria apenas um ano fora. Parecia muito tempo, contudo, ela continuaria mantendo contato com a família e, se quisesse, poderia ir visitá-los nos feriados prolongados.

– Vocês vão ver, o tempo vai passas rapidinho! – deu mais um último beijo em todos e se dirigiu para a área de embarque enquanto gritava. – Vejo vocês em novembro do ano que vem!

– Lilith, vê se trás uma lembrancinha de lá para mim! – berrou Elyando antes que ela sumisse de vista.

Uma vez dentro da área de embarque, Lilith se dirigiu ao portão descrito em sua passagem. Aparentemente, o lugar era tão comum quanto os demais ao lado. O último aviso para que embarcasse soou e ela apertou o passo até as funcionárias.

– Bom dia! – cumprimentou, entregando a passagem.

– Bom dia, senhoria Pontlagua! – uma bela mulher loira conferiu suas passagens. – Você é a nossa última tripulante. Bem vinda à aviação Fantasy! – disse, devolvendo tudo à garota.

– Fantasy? – olhou para o nome da empresa escrito nos papeis de embarque. – Mas, essa não é a…

– É Fantasy mesmo. – a morena sorriu solicita. – Esse nome que você está lendo é registrado e enfeitiçado, ou seja, a aviação Fantasy existe em ambos os mundos, contudo, toda a sua documentação foi enfeitiçada para enganar as pessoas normais.

– E se alguém decidir viajar por essa viação aqui, o que acontece?

– Bom… Nós trabalhamos em ambos os mundos mesmo. Portanto, podem viajar conosco sem problemas.

– Nunca houveram passagens trocadas ou algum problema no sistema que acabasse levando pessoas normais ao mundo wiccaniano?

– Já houveram sim…

– Mas, todos foram concertados imediatamente e sem consequências desastrosas para nenhum dos lados. – interviu a funcionária loira. – Por favor, senhorita Pontlagua, está atrasando o vôo. Poderia se apressar?

Lilith olhou torto para a mulher e despediu-se brevemente de ambas, sendo mais gentil com a morena. E enquanto corria pelo corredor que a levava direto para as portas de seu avião, sentiu um estranho formigamento pelo corpo, algo que a impulsionava seguir adiante e lhe dava ânimo para enfrentar o desconhecido.

Uma vez dentro do avião, a garota foi recebida com toda a pompa e glamour que as aeromoças wiccanianas poderiam oferecer: taças de champagne flutuantes, tulipas de gelo com um chopp tão brilhante quanto ouro, taças de diamante com vinho tão reluzente quanto rubis, canecas cheias do m ais puro hidromel rodopiavam ao redor dela, embriagando-a com o aroma adocicado.

– Seja bem vinda, senhorita! Aceita algo para beber antes da decolagem? – uma das aeromoças, a mais alta de esguia, apontou para os copos, taças e canecas flutuantes.

– Não estou com vontade de beber nada alcoólico no momento, muito obrigada! – ficou sem jeito diante de tanta atenção. – Mas, se vocês tiverem água, eu aceito.

– Aqui está! – uma mulher de baixa estatura, cabelos ruivos e sardas no rosto lhe entregou um copo de cristal, cheio até a borda com água gelada e cristalina.

– Que copinho pesado, ein! – comentou ao segurá-lo.

– É feito de uma mistura especial, juntamos vários tipos de pedras preciosas na sua confecção como rubis, esmeraldas, turmalinas, lapis lazuli, diamantes e assim por diante.

– Mas, é tão transparente quanto o cristal! – observou abismada.

– É uma magia especial que usamos durante a confecção. Mas, se você girar o copo em suas mãos e contra a luz, poderá ver as cores dos materiais que usamos. – delicadamente, a mulher pegou a mão de Lilith que segurava o copo e a ergueu contra a luz. – Vê?

Os olhos da garota arregalaram diante das cores vibrantes e cheias de luz que iam aparecendo a medida que a aeromoça movia sua mão. O objeto era tão lindo e de aparência tão delicada que chegava a dar um “gostinho” especial e puro para a água contida ali.

Lilith agradeceu pela atenção e bebeu todo o liquido de uma vez, apreciando a sensação refrescante que lhe descia pela garganta.

– Gostaria de se acomodar em uma de nossas cabines agora, ou deseja mais alguma coisa?

A garota sentia um pouco de fome, contudo, sabia que com o frio na barriga que estava sentido, não conseguiria comer nada sem passar mal depois. E de forma delicada, negou a oferta, devolveu o copo à uma das aeromoças e respirou fundo.

– No momento, temos apenas uma cabine com um lugar vago. Todas as outras estão lotadas. – uma mulher de cabelos coloridos analisava um pequeno dispositivo eletrônico, o qual era um pouco menor do que seu antebraço. Assemelhava-se a um tablet, contudo, extremamente fino e transparente como vidro. – Isso pode ser um problema para a senhorita?

– De jeito nenhum! – respondeu de pronto.

– Então, queira me acompanhar, por favor. – a mulher baixou o dispositivo e a guiou por entre as cortinas vermelhas do hall do avião, levando-a por um corredor largo cercado por portas de plástico coloridas. – Aqui está, cabine dez vermelha. – parou, dando passagem a garota. – Em cinco minutos decolaremos. Fique à vontade, senhorita. – com um sorriso simpático se despediu e voltou para as outras.

Lilith ficou encarando a porta vermelha, sem saber ao certo como deveria passar por ela, afinal, havia pessoas ali dentro que nunca vira na vida, como poderia simplesmente abrir a porta e ir entrando? Será que deveria bater antes?

Ela respirou fundo, deu duas batidas leves e entrou usando o seu melhor sorriso simpático para as cinco pessoas que a encaravam com o mesmo tipo de fisionomia para as boas-vindas.

– Oi! Será que eu podia me sentar com vocês? – pediu tímida. – É que o avião já está lotado e…

– Mas é claro que pode! – antes que Lilith pudesse terminar de falar, uma menina sentada perto da janela, respondeu.  – Meu nome é Beatrice Celanit e o seu? – ela tinha lindos olhos verdes, cabelos ondulados que caiam até próximo à cintura e exibia orgulhosa a vestimenta da Ave. Lilith também pode reparar, pelo reflexo na janela, que o vestido possuía um belo rendado com a imagem da Fênix.

– Eu me chamo Lilith Pontlagua! – se apresentou enquanto terminava de se acomodar no acento disponível.

– Não acredito você é a famosa Lilith! – uma garota sentada ao lado da Beatrice quase gritou surpresa. – A mesma que derrotou o wiccaniano Trivan? – espantada com a reação dela, Lilith apenas a encarou abobalhada e observou que ela estava vestida com a Fada, e pelo pedacinho do bordado que ela conseguia ver, talvez fosse uma Fênix também.

– Eu não sei… – conseguiu responder.

– Mas, você não é a Lilith Pontlagua? – Beatrice perguntou educada.

– Sim, sou sim. Mas, este está sendo um dos meus primeiros contatos com o mundo wiccaniano. Eu apenas descobri a minha origem há alguns dias. – explicou.

– Então, você sabe quase nada do nosso mundo? – Lilith confirmou com a cabeça. – Bom… Vou ter que fazer um intensivo com você! A começar pela história que a transformou em uma celebridade por aqui! – balançou os longos cabelos loiros, enquanto se mexia no banco para poder estender a mão para a novata. – Eu me chamo Karoline Delaflor!

– E eu sou o Hugues Wilker. – apresentou-se um garoto de cabelos castanhos claros, sentado de frente com Karoline. – Prazer em conhecê-la! – ele possuía a vestimenta da Serpente, com esforço, Lilith pode notar um Pégasos bordado atrás.

– Oi! – cumprimentou outro menino, sentado ao lado de Hugues. – Eu sou o Paullu Logan! – ele era bem parecido com Beatrice e trajava a roupa do Leão, que pelo detalhe escuro e mais grosso da parte de trás, Lilith supôs, ter um Pégasos bordado também.

– Nossa, eu não a imaginava assim… – comentou um garoto sentado ao lado de Paullu. Ele a analisava dos pés à cabeça. – Um o sonho de garota! – sorriu sedutor e lhe estendeu a mão. – Eu me chamo Gautry Stafre, ao seu dispor! – apesar do estupor causado pela surpresa e a timidez, Lilith notou que ele tinha a roupa do Dragão, provavelmente com um Pégasos bordado atrás. – Meu nome é complicado, mas pode me chamar de Gu, ou da forma como preferir.

– Oi para todos! – sentia-se quente e totalmente sem graça. A garota poderia jurar que estava mais vermelha do que a porta ou as cortinas daquela cabine.

– Atenção, senhores passageiros. Aqui quem fala é o comandante do vôo 1089, com destino a Fantasy. Vamos decolar em alguns minutos, estamos aguardando a autorização da torre. Obrigado por escolherem a nossa companhia e tenha uma ótima viagem.

Lilith sentiu o avião começar a andar pela pista, posicionando-se para a decolagem. Respirou fundo e sentiu a ansiedade dominar seu corpo novamente.

– Tem alguma outra companhia fazendo essa ponte entre São Paulo e Fantasy? – ouviu Beatrice perguntar.

– Até onde eu sei, não tem não. – Karoline respondeu em um tom incerto.

– Madames, por favor… – Paullu sorriu. – Não se iludam. Não há outra companhia. Não temos outra opção. Essa é somente uma fala padrão de todos os pilotos.

Logo em seguida o grupo começou um burburinho, onde um tirava sarro do outro. Até Lilith, apesar de toda a timidez e nervosismo, sentiu-se confortável e entrou no meio da brincadeira.

– Senhoras e senhores, recebemos a autorização para a decolagem. Por favor, apertem os seus cintos e mantenho as poltronas na posição vertical. Tenham todos um ótimo vôo.

Assim que o anuncio terminou, os tripulantes sentiram aquele frio na barriga característico. O avião começou a correr pela pista e em segundos já estava sem contato algum com o solo. A pressão e os chacoalhões iniciais fizeram com que tudo ficasse silencioso por alguns instante, sendo que apenas o som metálico do avião e das turbinas fosse ouvido.

O sorriso de ansiedade no rosto daqueles seis jovens, compartilhando a cabine vermelha, era a imagem mais marcante da primeira viagem de um wiccaniano para Fantasy.

 

 

guardias_da_fenix_comeco



{maio 28, 2013}   O Destino da Escolha

(parte do capítulo…)

 

4º Capítulo

Busque pelo Sol, querida Lua…

 

 

Já passavam das três horas da madrugada, logo o sol apareceria no horizonte. Marcos achou melhor ir acordar Mayara para que esta o ajudasse a se esconder, já que o apartamento era dela e ele não saberia onde poderia se proteger dos raios solares.

Bateu na porta do quarto, mas ninguém respondeu. Bateu novamente, mas obteve a mesma resposta: o silêncio… Virou a maçaneta e viu que a porta não estava trancada. Hesitou por alguns segundos, olhando o vão aberto e a sua mão firme na maçaneta. Deu um longo suspiro e decidiu entrar.

O quarto estava escuro, mas isso não era um obstáculo para Marcos. Ele acendeu seus olhos com um brilho vampiresco e viu a imagem de Mayara deitada na cama dormindo tranquilamente. Olhou em volta e notou que ela já havia tirado a roupa jogada de cima da cama, deveria ter guardado ou colocado em algum outro lugar para poder lavar depois. Mas o que lhe chamou mais a atenção foi a janela do quarto. Ela estava totalmente vedada, de maneira considerada quase profissional, como se a pessoa que a tivesse vedado já houvesse feito aquilo muitas e muitas vezes na vida. A janela bloqueava qualquer feixe de luz noturna que tentasse entrar, deixando o quarto extremamente escuro. Provavelmente o bloqueio funcionaria para a luz solar também. Quando ela havia feito isso?

Sentou-se na beirada da cama, ao lado da mulher e começou a acariciar o seu rosto. Ela estava tão linda dormindo, não queria acorda-la, mas devido à situação, ele se sentia obrigado a despertá-la. Continuou a acariciá-la, de vez enquanto passando a mão pelo seu cabelo escuro e liso. Aproximou-se de seu ouvido e começou a chamá-la. Mayara finalmente abriu os olhos, despertando de um sono profundo e sem sonhos, e viu a silhueta do vampiro ao seu lado.

– O que você está fazendo? – sentou-se na cama tentando espantar o sono e passou a encará-lo um pouco surpresa com a presença dele ali.

– Desculpa, mas eu precisava te acordar. – ele apontou para o relógio digital ao lado da cama.

– Hum… – olhou para o relógio e depois se espreguiçou, dessa vez, espantando completamente a preguiça que ainda estava impregnada em seu corpo e mente.

– Bom… Aonde eu vou passar a manhã? – ficou de pé, evitando encarar o corpo delineado da mulher. Quando ela havia se espreguiçado, o pijama havia se aproximado mais da pele de Mayara, contornando seus traços e ele pôde perceber com maior clareza as curvas acentuadas do busto.

– Aqui mesmo no meu quarto. – ela levantou devagar, se acostumando mais com a escuridão do quarto e olhou para a cama. – Você quer que eu arrume a cama para você ou não se incomoda em dormir nela desarrumada?

– No seu quarto? Tem certeza? – ele havia deixado a imagem do pijama colado ao corpo de Mayara de lado e se aproximou dela ainda um pouco surpreso com o fato de que, realmente, ela havia preparado o quarto para ele.

– Por acaso consegue supor algum outro cômodo mais adequado, vampiro? – cruzou os braços e passou a encará-lo, esperando por alguma resposta.

– Não… – ele não gostava de ouvi-la chamá-lo de vampiro. Odiava vê-la fria com ele. – E não se preocupe. Pode deixar a cama exatamente como está!

– Então tá! – descruzou os braços e ajeitou o cabelo ainda bagunçado pelas horas de sono. – Precisa de alguma coisa?

– Não. Já tenho o suficiente. – deitou-se na cama. – Obrigado, humana! – colocou os braços para trás da cabeça e fechou os olhos.

Mayara sentiu um leve desconforto. Odiou ser chamada daquele jeito pelo Marcos. Havia percebido o quanto era duro para ele quando ela o chamava de vampiro. Mas, resolveu fingir que nada Havaí sentido com aquilo, como se aquele tratamento já fosse normal entre eles. Ela não daria o braço a torcer. Era orgulhosa demais!

– O que foi? Vai ficar aí parada me encarando, é? – Marcos a espiava com apenas um dos olhos.

– Não seja grosso comigo! – aproximou da cama o encarando nervosa. – Estou arriscando a minha vida e a vida de todos que me conhecem ajudando você! Mostre ao menos um pouco de respeito para com a minha pessoa, vampiro! – assim que terminou de ouvi-la, Marcos sentou-se rapidamente na cama e a encarou irritado.

– E você acha que já não faltou com respeito comigo, humana? – ficou de pé e se aproximou dela, andando em círculos ao redor de Mayara. – Aliás, se você sabia que correria tantos riscos assim e envolveria pessoas inocentes. Por que, diabos, você foi atrás de mim para me ajudar?

– Porque eu quis! – aumentou o tom de voz, exasperada com a situação. – Ou ainda não conseguiu perceber isso? – se afastou do vampiro e encostou na janela toda vedada. Fechou os olhos e tentou controlar as batidas do seu coração. Respirou fundo e voltou a encará-lo um pouco mais confiante. – Melhor deixarmos isso de lado… – desencostou-se da janela, pegou algumas peças de roupa e foi até o banheiro, batendo a porta.

Marcos voltou a se deitar e aproveitou o momento de solidão para pensar um pouco. Havia várias coisas que o estavam deixando intrigado… Ele não entendia o porquê que Mayara se arriscava tanto por ele, o porquê que ela já tinha tudo planejado para a chegada dele e por que aquela mulher o deixava assim… tão alterado.

– Aaaaaaaah!! Mas que mulher mais complicada! – socou o travesseiro. – Maldita seja Mayara Campelli!!!

– Maldito seja você, Marcos Ac’Daro. – disse calmamente em resposta quando saiu do banheiro já trocada. – Se precisar de algo é só me chamar. Estarei na sala até o meio dia, depois desse horário terá que se virar.

– Aonde vai? – estreitou os olhos enquanto a encarava.

– Almoçar com minha irmã. E tenha uma boa manhã, vampiro! – saiu do quarto e fechou a porta. Deixando Marcos sozinho em seu quarto, protegido dos raios solares que, dentro de alguns instantes, apareceriam.

 

 

o_destino_da_escolha



{maio 14, 2013}   O Destino da Escolha

(outra parte do capítulo…)

 

3º Capítulo

Vejas teu próprio âmago sob a luz da lua.

 

Bruno viu o céu já escuro através da janela do quarto de Anna.

– Droga… – levantou-se da cama meio atordoado por causa do sono. – Perdi a noção do tempo e me esqueci da caçada… – sussurrou levando as mãos ao rosto e esfregando-o em uma tentativa de despertar mais rápido.

Olhou para a cama onde estivera deitado e viu as duas lindas garotas, cobertas apenas pelo lençol e dormindo tranqüilamente. Deu um leve sorriso de satisfação e vitória, espreguiçou-se, colocou agilmente a roupa e saiu do apartamento antes que alguém desse por sua falta.

Já na rua com sua moto, decidiu ir até a Praça das Águas. Tinha quase certeza de que a presa já estaria em movimento e, portanto, seria mais difícil encontrá-la. Mas ainda tinha a esperança de poder “esbarrar” com o seu alvo.

– Vejamos… – disse para si mesmo ao parar e descer de sua moto, olhando para a praça à sua frente. – Indícios… Pistas… Preciso de algo para caçar! – começou a andar pelo lugar em busca de algo que lhe fosse peculiarmente estranho ou que pudesse facilmente relacionar à sua presa.

Enquanto passava pelos bancos sentiu um leve cheiro que se assemelhava ao de ferrugem. Estava quase que imperceptível por causa do vento. Era um cheiro familiar… Um cheiro que, praticamente, já estava acostumado a sentir por causa de sua profissão. Cheiro de sangue!

Procurou de onde vinha e esbarrou num banco de madeira, o qual possuía uma estranha mancha avermelhada. Um sorriso maroto brincou em seus lábios. Havia encontrado uma excelente pista!

Passou a seguir os mesmos passos que antes Mayara havia utilizado para encontrar o vampiro. Porém, a diferença era que agora havia pegadas a mais. Havia pegadas de mais alguém além das que pertenciam à presa.

– Hum… Estranho… Vejo outras pegadas, mas não parecem pegadas de alguém que foi levado à força, ou que estava com a mesma pressa da minha vitima… – começou a segui-las. – Parece que essa pessoa o estava seguindo ou até acompanhando… – olhou envolta enquanto seguia os rastros e viu outras pegadas, porém estas estavam na direção contrária. – E pelo o que vejo… Também saíram juntos… – esboçou um sorrisinho. – Acho que tenho mais rivais…

Seguiu as pistas até o saguão abandonado. Entrou no lugar, mas não encontrou nada que os denunciasse… Exceto um tênue perfume feminino, doce e delicado, o qual se destacava e não tinha nada em comum com o cheiro de mofo característico do lugar.

– Uma mulher… – encostou na parede e deu um sorriso malandro. – Pelo visto…   A minha caça está se dando bem… – foi até o lado de fora e olhou para o céu escuro e estrelado. – Aproveite enquanto pode… – saiu andando calmamente na direção de sua moto.

 

o_destino_da_escolha



{abril 18, 2012}   O Destino da Escolha

(uma parte do capítulo…)

 

 

3º Capítulo

Vejas teu próprio âmago sob a luz da lua.

 

 

 

Mayara entrou no apartamento em silêncio. Apesar de não aparentar, sentia-se cansada. Havia ficado algumas noites sem dormir e agora que finalmente encontrara o seu “amigo” tão esperado, parecia ter permitido que seu corpo relaxasse e se deixou dominar pela fadiga. Esperou Marcos entrar e fechou a porta, tomando o dobro de precaução do que o costume. Afinal, agora ela estava escondendo um vampiro em seu apartamento.

– Fique à vontade vampiro. – jogou as chaves na mesa e massageou o couro cabeludo, tentando acalmar a necessidade que sentia, ansiava por um pouco de alivio que somente a massagem lhe proporcionava. – Irei ao meu quarto… Preciso dormir um pouco… – e sem encarar seu incomum hospede, rumou em direção ao aposento.

– Espere! – Marcos a segurou pelo braço, aquele tratamento informal e aquela indiferença, por algum motivo que ainda desconhecia, o estava incomodando. – Quando parará de me chamar de vampiro?

– Quando recuperar minha simpatia por você! – virou-se e encarou o vampiro com um olhar diligente.

– Não gosto de vê-la tratar-me deste jeito! – afrouxou um pouco as mãos para não machucá-la. – Já não me desculpei?

– Estou cansada… – ignorou os apelos dele e virou o rosto. – Boa noite! – tentou voltar a andar na direção do quarto.

– Será que não percebe? – Marcos a puxou com mais força, prendendo-a perto de seu corpo. – Inexplicavelmente, eu não gosto de vê-la tão distante assim de mim. Além de ter me encantado com a sua beleza e coragem, sei que sinto algo especial por você. Não sei direito como, porquê ou o que sinto… Mas, é como se já a conhecesse!

– Bobagem! – Mayara o empurrou para que pudesse se soltar. – Se não queria me ver distante, então não zombasse de minha generosidade! – assim que conseguiu se ver livre do vampiro, correu até o seu quarto para que não corresse o risco de ser impedida por ele novamente. – Mais uma vez… Boa noite, vampiro! – bateu a porta.

– Aaaaah!! Mas que mulherzinha temperamental e impossível! – se jogou no sofá, completamente irritado e chateado.

– Mas que vampiro impertinente! – Mayara praticamente arrancou o sobretudo do corpo e o jogou na cama, tamanho era o seu aborrecimento. – Por que ele simplesmente não me agradece ao invés de ficar fazendo brincadeirinhas idiotas e falando coisas sem sentido? – foi até a janela e colocou a mão sobre o peito. Seu coração estava disparado. – Hupf… Como ele se atreveu a me deixar assim? – resmungou ao afastar-se da janela.

– Eu deveria imaginar que essa humana é uma cabeça-dura! – levantou do sofá e foi até a sacada para tentar acalmar a mente perturbada. – A culpa é minha por me abrir com uma ignorante! – sentiu um leve perfume passar por ele. Sua fisionomia mudou, ficou mais calma. – Mayara… – olhou para a janela acesa próxima a sacada. Era o quarto da humana. – Por que você me deixa tão irracional? Eu só a conheci esta noite…

– Por que eu levo tudo o que ele fala a sério? – se despiu e jogou toda a roupa sobre a cama, em cima do sobretudo. – Nem o conheço direito e já sinto meus sentimentos oscilantes com suas palavras. Devo estar louca! Só pode ser isso… – foi até o banheiro, encostou a porta e ligou o chuveiro. Um bom banho quente a ajudaria apaziguar seus sentimento e faria com que seu corpo agradecesse pela terapêutica e relaxante água que caia e levemente massageava seus músculo.

Marcos ficou observando a janela por alguns minutos, perdido em um turbilhão de pensamentos. A falta de harmonia entre seus desejos e sua razão estava começando a deixá-lo impaciente. Sentia uma enigmática vontade incontrolável de ir até aquele quarto, de espioná-la…

Aquele conflito interno era novo e misterioso para ele. Nunca havia se sentido assim antes, ainda mais por uma humana que havia acabado de conhecer.

Mayara fechou seus olhos debaixo da tranqüilizante e revigorante água e deixou escapar um sorriso. Apesar de tudo sentia-se feliz. Finalmente ela havia encontrado o seu tão esperado “alguém”!

Sem saber direito como e porquê, o vampiro se viu dentro do quarto dela. Olhou ao redor cauteloso, não queria se envolver em mais conflitos. Certificou-se de que realmente não havia ninguém ali e sentou na cama. Pegou a blusa que a mulher estava usando e a colocou perto do nariz. Como aquela humana cheirava bem…

Analisou o quarto mais uma vez para ter certeza. Realmente não havia ninguém ali. Fechou os olhos e aguçou seus outros sentidos. Ouviu o barulho do chuveiro e, sem conseguir se controlar, foi silenciosamente até a porta do banheiro. Ficou a espionar pela fresta que Mayara havia deixado acidentalmente ao apenas encostar a porta ao invés de fechá-la totalmente. Marcos deu um sorriso de triunfo e satisfação. Estava vendo a silhueta de Mayara atrás do boxe, tomando banho. Aquela imagem parecia ser o verdadeiro paraíso para seus olhos.

A mulher sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Alguém a estava espionando! Olhou em volta e viu a fresta. Desligou o chuveiro e puxou a toalha, cobrindo seu corpo nu. Ao perceber a reação da humana, o vampiro se colocou em alerta. Precisava fugir dali antes que ela o descobrisse! Correu até a janela. Mayara saiu do banheiro e cuidadosamente vasculhou o quarto com o olhar, havia ninguém ali, exceto ela.

– Parece que estou realmente cansada… – murmurou – Meus sextos sentidos não estão funcionando como deveriam. – enxugou-se e colocou o pijama.

Marcos, mais do que depressa, se jogou no sofá novamente. Se tivesse demorado mais um segundo, Mayara o teria pegado! Olhou em volta e começou a rir com gosto. Pela primeira vez em sua vida havia fugido de uma humana ao invés do contrário!

Mayara arrumou o seu quarto para ir dormir. Sentiu o estômago vazio e lembrou-se de ter apenas tomado um suco e um sorvete durante o dia todo. Nada a mais!

Colocou as mãos sobre a barriga e a ouviu roncar. Pelo visto o seu estômago não queria ir dormir sem nada para digerir. Suspirou e decidiu ir até a cozinha comer algo antes de se deitar.

O vampiro estava deitado no sofá, tinha os seus olhos fechados e parecia ligeiramente alegre. Quando saiu de seu quarto e deparou-se com essa cena, a mulher ficou curiosa. Por que ele parecia tão feliz assim? Resolveu ignorar e foi até a cozinha.

Marcos, ao sentir o perfume da humana se intensificar, aprumou a audição e ouviu um barulho vindo de perto. Abriu os olhos, olhando na direção de onde julgava vir o cheiro e o barulho e viu Mayara sair da cozinha, carregando uma xícara e um potinho com frutas.

– Hum… Fazendo um lanchinho antes de dormir?

– Fiquei com fome. – sentou na poltrona ao lado do sofá, tomando cuidado para não derramar o conteúdo da xícara. – E… Desculpa por ter sido arrogante com você, mas quando estou cansada eu fico meio chata mesmo. – deu um gole em seu chá, evitando os olhos envolventes de Marcos.

– Quem tem que pedir desculpas aqui, sou eu. – sentou no sofá, ficando de frente para ela e a encarou com olhos de remorso. – Fui meio criança e… Sonhador demais…

– Sabe… – suspirou. – Pensando bem… – colocou a xícara no chão e cruzou as pernas, ficando sentada sobre a poltrona. – Você não foi tão infantil ou sonhador assim…

– Não fui? – não tinha conseguido conter a surpresa com o comentário.

– Não… – mordeu uma maçã.

O vampiro deu um largo sorriso. Afinal, parecia que ele estava finalmente recuperando a simpatia dela!

– Está com fome? – perguntou enquanto olhava para a marca da mordida que havia acabado de dar na fruta.

– Bom… Estou um pouco. – confessou com um sorriso torto. – Mas, como você já deve saber, a única coisa que me sacia é sangue e… – olhou-a de maneira duvidosa. – Eu acho que você não me deixará ir caçar sozinho, não é?

– Mas, quem disse que você terá que caçar?

– Então, é você quem me dará sangue? – perguntou em tom de brincadeira.

– Sim… Tecnicamente, serei eu! – levantou do sofá, ignorando a reação de Marcos com a sua resposta.

– Sério?! – o vampiro estava espantado e com uma expressão de desacreditado.

– Vem comigo. – Mayara foi até a cozinha sendo seguida de perto por Marcos que havia levantado em um pulo do sofá assim que ela o chamou.

Quando entraram na cozinha, a humana colocou seu potinho em cima da pia, abriu a geladeira e tirou de dentro um saquinho contendo algo viscoso e liquido, de  uma cor vermelho vivo.

– Toma! – jogou o saquinho para ele.

– O que é isso? – pegou-o no ar e a encarou confuso e com um ar questionatívo. Aquilo era realmente o que parecia ser?

– Oras… É sangue!

– Mas, é sangue mesmo?! Não tá de brincadeira não? – cheirou o saquinho para ter certeza. – Nossa… O pior é que aqui dentro tem mesmo sangue. – disse para si mesmo, tentando fazer seu próprio cérebro acreditar naquilo. A humana o estava alimentando?

– Pode comer. – encostou-se na parede e ficou a observá-lo. – Tenho um amigo que trabalha no banco de sangue de um hospital aqui perto e como ele me devia um favor… Consegui alguns desses para você.

– Obrigado. – olhou para o saquinho e ficou brincando com ele, fazendo o conteúdo balançar de uma ponta a outra. – Quando foi que você conseguiu isso daqui?

– Faz um tempinho que estou com eles… – admitiu. Mayara sentiu seu rosto dar uma leve esquentada enquanto respondia.

– Antes de me encontrar? – voltou a encará-la, mas fingiu não perceber o suave e meigo rubor que aparecia no rosto dela.

Mayara ficou calada, não queria responder. Se respondesse, deixaria muito obvio que estivera esperando por ele e se isso acontecesse, ela teria que explicar o porquê e, por enquanto, queria evitar aquele assunto constrangedor e estranho o máximo possível.

– Vamos! Tome isso logo! Preciso ir dormir.

– Então, por que não vai dormir? Eu sei me alimentar sozinho. Não preciso de supervisão! – respondeu sem evitar o mau humor. Tinha ficado aborrecido com o fato de ela ter fugido da sua pergunta. Mayara realmente precisava ter evitado sua pergunta? Aquilo o levava a uma curiosidade que talvez fosse impossível de ser saciada até que a mulher resolvesse falar. Esse tipo de situação que o deixava sem alternativas, a não ser conviver com uma questão sem resposta o irritava.

– Não precisava ser tão grosso. – lançou-lhe um olhar de censura, completamente chateada com a reação seca e mal humorada do vampiro. Ele tinha mesmo que estragar tudo quando as coisas estavam começando a ir tão bem entre eles? Estava realmente chateada e não iria disfarçar isso. – Estava apenas preocupada, mas já que a minha preocupação de nada lhe agrada… Vou me retirar daqui. – saiu da cozinha com passos rápidos e nervosos. – Boa noite, vampiro! – bateu novamente a porta do quarto. Jogou-se em sua cama, resmungou algumas coisas e logo o cansaço a fez adormecer.

– Eu e a minha boca grande… – sentia-se revoltado consigo mesmo e cravou seus dentes no saquinho sugando todo o seu conteúdo. – Droga! – voltou para o sofá, se jogou nele e ficou a meditar sobre tudo o que estava acontecendo desde o momento em que ela havia pisado naquele saguão.

 

 

 



(continuação do segundo capítulo…)

 

 

 

 

Vila Dragon.

– Mãe, aquilo da roupa vai acontecer comigo também? – Elyandro ajudava a mãe e a irmã a carregarem as sacolas com trocas de vestidos vermelhos, acessórios, peças de roupa diversas, sapatos, apetrechos, aparatos, materiais entre outras coisas.

– Sim, meu filho. – sorriu para o garoto. – Mas, no seu caso, vai precisar escolher entre outros três clãs: o do leão, o da serpente e o do dragão.

– Posso fazer mais uma pergunta? – ajeitou uma parte das sacolas nos ombros, para diminuir o peso em uma das palmas.

– Pode, filho… – mexeu os braços, ajeitando melhor as compras.

– Então, me diz uma coisa… – bufou mal humorado. – Por que eu tenho que carregar tudo isso, se não tem nada meu?

– Ora, porque você é um garoto educado e muito bem criado que está ajudando sua mãe e sua irmã, duas lindas damas, a carregarem suas compras. – piscou jocosa. – Vamos lá, filho! Seja um cavalheiro e continue nos ajudando.

Elyandro bufou mais uma vez e revirou os olhos diante da expressão falsamente suplicante de sua mãe. No entanto, continuou a carregar as sacolas sem reclamar.

Suélen puxou a bolsa para mais perto e abriu o zíper, retirando de dentro uma pequena lista dobrada em quatro partes.

– Vejamos… Já compramos o caldeirão de estanho resistente que a senhorita queria… – olhou de soslaio para a filha, relembrando-a do quão caro sairá o apetrecho.

– Mas, estanho é o melhor material para caldeirões!

– Você diz isso só porque o vendedor disse. – Elyandro retrucou.

– É claro que não! – Lilith fuzilou-o com o olhar.

– Até parece! – riu. – Você nunca precisou se preocupar com esse tipo de coisa antes.

– Mas, não quer dizer que eu já não soubesse.

– Você entrou na primeira loja em que viu caldeirões expostos! – continuou a zombar da irmã. – Nem mesmo fez uma pesquisa por outras lojas, antes de pedir para a mamãe comprar aquele de estanho.

– Você nunca foi tão racional assim com dinheiro e compras. – provocou. – Está com inveja, é?

– Chega! Parem de brigar! – Suélen se impôs na discussão. – De qualquer forma, o caldeirão já foi comprado. – voltou a analisar a lista. – As roupas também já estão aqui, o pentagrama para convocações, a colher de pau para as receitas mágicas, o cálice para rituais… – foi passando os olhos pelos itens e murmurando. – Buril, ok. Sino, ok. Vassoura, ok. Balança, ok. Livros, ok… – suspirou. – Parece que falta comprarmos um telescópio, um conjunto de frascos, uma chave mágica, um cetro, um espelho mágico, uma varinha e, finalmente, uma espada cerimonial!

– Mais lojas? – Elyandro quase deixou o corpo amolecer em desanimo.

– Bem… Podemos conseguir a maioria dessas coisas naquela loja ali. – apontou para um chalé largo e amplo, com uma simpática placa de madeira pendurada na fachada. Entalhado nela estava o nome do estabelecimento: Artefatos e Fatos de Magia.

Uma vez dentro da tal loja, os três passaram algum tempo escolhendo um telescópio que fosse bom e capaz de ver além do universo visível aos olhos de pessoas comuns; um conjunto de frascos que não explodissem com as poções a serem preparadas; uma chave mágica própria para ser enfeitiçada para abrir portais entre dimensões paralelas; um espelho mágico parecido com o da história de Branca de Neve; e um cetro de ótima qualidade, capaz de auxiliá-la nas proezas mais complicadas que aprenderia em Fantasy.

– Agora, só falta a espada e a varinha! – Suélen respirou fundo ao sair da loja, carregando ainda mais sacolas.

– A escolha da minha varinha será como no filme de Harry Potter? – Lilith entusiasmou-se.

– Não exatamente. – tentou ponderar. – Você precisa se identificar com sua varinha e não o contrário, como praticamente foi com suas roupas.

– Bom… Acho que estou fazendo comparações demais desse mundo com a série, não é? – sorriu sem graça.

– Digamos que tem muita coisa parecida entre os dois. – Suélen sorriu. – Acho que a autora deve ser uma wiccaniana! – brincou, recordando-se da suspeita que Selso levantaram naquela manhã. – Vai que ela quis escrever sobre nosso mundo, porém, sem ser exata demais para não prejudicar ninguém.

– Sabe, dadas as circunstancias em que nos encontramos, não duvidaria da sua hipótese! – Lilith olhou ao redor. – Aparentemente, tudo é possível agora.

– De qualquer forma… – deu de ombros. – Vamos até à Artesã e Ferreiro fazer as ultimas compras do dia?

Não foi preciso caminha muito entre uma loja e outra. Alguns passos depois, já podiam avistar uma casa baixa e comprida, a aparência lembrava um pequeno galpão extenso, com uma pequena chaminé de inverno.

Ao se aproximarem da construção, perceberam que os tijolos vermelhos pareciam estralar e a chaminé, aparentemente, não parava de exalar fumaça, ora branca, ora preta. Do lado de fora, o lugar dava a impressão de ser como uma sauna por dentro e isso não animou nenhum dos dois irmãos.

– Posso esperar do lado de fora? – Elyandro apoiou as sacolas no chão, recostando-as na parede.

-Malandro… – Lilith sussurrou para o irmão.

– Você quem sabe. – Suélen colocou suas compras ao lado das que o filho havia depositado no chão. – Mas, terá que ficar de olho em tudo.

– Por mim, tudo bem! – deu de ombros.

Lilith também colocou as sacolas que carregava no chão e ajudou Elyandro a ajeitá-las em um canto. Viu-o se sentar ao lado delas e tirar o celular do bolso do shorts.

– Mãe, aqui tem sinal de celular? – balançou o aparelho nas mãos.

– Tem sim. – apontou para as pessoas ao redor, as quais pareciam praticar magia. – Só tome cuidado com a interferência. Algumas pessoas gostam de pregar peças, usando ondas eletromagnéticas e tecnologia.

– Ok… – ligou o aparelho e começou a mexer em um jogo online.

Lilith revirou os olhos diante da indiferença do irmão. Se fosse ela, estaria analisando cada detalhe do lugar.

– Isso só pode ser ciúmes… – resmungou.

– O que disse, filha? – Suélen passou o braços pelos ombros da garota, enquanto entravam na loja.

– Nada não, mãe. – suspirou e se preparou para as surpresas que encontraria ali dentro.

———————————————————————————————

Assim que as porta se fecharam atrás delas, colocando-as definitivamente para dentro de um mundo repleto de varinhas e espadas, tudo das mais varias formas, tamanhos e cores.

O ambiente era um tanto escuro, porém, repleto de detalhes surpreendentes, como miniaturas de dragões perambulando por entre as lâminas, pequeninos grifos brincando por entre as hastes de madeira entalhada, entre outras mini criaturas mitológicas que perambulavam livremente pelo lugar.

Antes que pudessem dar mais algum passo, foram abordada por uma simpática senhora, a qual, aparentemente, havia surgido de algum canto escuro da loja.

– Sejam bem vindas, minhas queridas!

Lilith estreitou os olhos para analisá-la melhor. Ele lhe era extremamente familiar. Observou-a por mais alguns segundos até conseguir se lembrar de onde poderia conhecê-la. E se sentiu uma parva por não conseguir recordar de um acontecimento tão recente.

– A senhora por acaso é irmã da Loren da loja de roupas? – perguntou de pronto, sem vergonha.

– Não, não… – sorriu em resposta. – Não sou irmã da Loren da Se vista com Mágica.

– É que vocês duas são tão parecidas… – comentou surpresa.

– Não sou irmã dela, mas sou prima. – riu diante da expressão de esclarecimento no rosto de Lilith. – Agora, faz mais sentido, não é? – continuou a rir enquanto caminhava pela loja, fazendo gestos para que a seguissem.

As duas seguiram a senhora, indo se embrenhar em um canto abafado e com um forte cheiro de fomo, onde as paredes eram repletas de estantes com caixas, papéis, alguns livros e estatuetas de homens e mulheres, aparentemente, praticando magia.

– Como está o seu marido, Suélen? – a senhora parou de andar e apontou para dois bancos de madeira, onde podiam se sentar.

– Está bem, obrigada! – sentou-se com delicadeza, ajeitando o vestido ao fazê-lo.

– Ainda me lembro da primeira vez que você e Selso pisaram em minha loja. – sorriu saudosa. – Sem foram boas crianças…

– Obrigada, Edna. – Suélen retribuiu o sorriso, transparecendo muito carinho pela vendedora. – Dessa vez, eu trouxe meus filhos. O caçula, Elyandro, está lá fora cuidando das compras. – apontou para um espaço qualquer atrás de si. – E esta daqui é a minha primogênita, Lilith. – passou a mão pelos cabelos da filha. – Ela acabou de receber uma carta de Fantasy.

– Você parece ter o poder da sua mãe! – Edna beliscou levemente o queixo da garota.

– Como assim? – Lilith olhou tanto para a senhora quanto para sua mãe.

– Aqui, dizer isso é tão comum quanto dizer que você é parecida comigo, ou que tem os meus olhos… – Suélen balançou uma das mãos em movimentos repetitivos e lentos. – Coisas do gênero.

– Certo… – murmurou. – Entendi.

– Querida, tente experimentar essa varinha. – colocou-a na mão da garota.

– Experimentar? – com o olhar buscou pela ajuda da mãe.

– É só mover. – disse Suélen, fazendo gesto de incentivo a filha.

– Assim? – começou a balançar a mão.

– Sente algo diferente, querida? – Edna observava com atenção.

– Sinceramente, não…

– E com essa? – trocou a varinha.

– O que eu supostamente devo sentir?

– Você saberá. – entregou-lhe outra. – Se ainda não sabe, é porque não sentiu.

– Interessante, mas… Também não é essa.

Ao todo, Lilith experimentará quase vinte varinhas diferentes. Balançava-as de um lado para outro, brincava com os movimentos e até arriscava algumas palavrinhas, porém… Nada!

– Será que essa luva atrapalha? – começou a retirar as luvas vermelhas que cobriam parcialmente suas mãos e deixavam os dedos de fora.

– Atrapalhar, não atrapalha. Mas… – algo chamara a atenção da senhora. – O que é isso na sua mão? – delicadamente, segurou a mão esquerda da garota e a puxou para mais perto de sua vista. – É uma cicatriz em forma de olho?

– Hm… é! – lançou um breve olhar na direção da mãe e continuou. – Quando eu era mais nova presenciei o assassinato de meu primo. – engoliu em seco. – Eu não me lembro como as coisas aconteceram. Todos me contam que um psicopata entrou em nossa casa e atacou minha família e a mim. – prendeu a respiração. – Só consigo me lembrar da dor e do desespero. Mais nada…

– Lilith conseguiu nos defender. – pousou a mão sobre o colo da filha, dando-lhe apoio. – Desde pequena, ela sempre foi um prodígio na magia, mas, o assassino conseguiu feri-la. – apertou a coxa de Lilith. – Ela salvou a todos nós.

– Menos meu primo… – sussurrou. – E a última lembrança que me restou dele, foi essa cicatriz bizarra, feita no dia de seu assassinato. – puxou a mão de volta para si.

– Então, quer dizer que a história de que você o derrotou, era verdade? – a vendedora arregalou os olhos.

– Derrotei quem? – Lilith ergueu os olhos e a encarou surpresa.

– Oh, não! – Edna levou as mãos à boca e lançou um olhar culpado a Suélen. – Ela não sabia!

– Eu não sabia o que? – sentia-se perdida.

– Desculpe por isso, Suélen! – a senhora parecia realmente arrepender-se de algo.

– Mãe, o que está acontecendo aqui? – encarou-a exasperadamente.

– Calma, filha! – a abraçou. – O assassino que você derrotou, era um grande rival de minha família. – apertou-a mais forte contra si. – Digamos que ele é um wiccaniano das trevas.

– E por acaso há alguma profecia que eu deva saber?

Lilith não sentia vontade alguma de comparar a própria realidade com as obras de J. K. Rolling, como vinha fazendo. No entanto, fora inevitável fazer a pergunta, pois, se havia tanta coisa similar, o que a impedia de imaginar que a ficção fora baseada em alguma realidade obscura, na qual ela estava envolvida?

– Não sabemos ainda… – Suélen fora sincera. – A única coisa que sabemos é que o cretino do Trivon foi o responsável pelo assassinato do seu e do meu primo! – trincou os dentes.

– Me desculpem por isso, queridas! – a vendedora aproximou-se solidaria ao momento.

– Tudo bem, Edna! – a mulher endireitou-se, soltando a filha do abraço. – Uma hora ou outra eu precisaria contar a verdade para Lilith. – continuava a manter a mão na perna da garota. – Desculpe por esconder tanta coisa de você, querida.

– Eu entendo, mãe. – respirou fundo. – Não estou brava, apenas um pouco chateada. Mas, logo passa. – arriscou um sorriso. – Por que não deixamos as lembranças ruins de lado, assim como o papai recomendou hoje de manhã, e não continuamos com as varinhas?

– Claro! – Suélen sentiu-se agradecida pela filha ter sido compreensiva.

– Ótimo! – Edna depositou uma varinha de madeira avermelhada e lindos entalhes dourados. – Bem… Esta que lhe entreguei é uma das varinhas originárias da Fênix – apontou para os desenhos entalhados. – E esta daqui é aquela que representa o poder da mente que esse ser possui. – sorriu. – Ela é única! Aí dentro estão gravados todos os poderes dela, juntamente com a sabedoria acumulada por todos os donos anteriores e pela própria ave que se doou para a confecção da varinha.

– Como assim “se doou”? – Lilith arregalou os olhos.

– Essa Fênix em específico preferiu doar suas penas, poderes e lembranças um pouco antes de falecer. – passou um dos dedos pelos detalhes da varinha, demorando-se em um que se assemelhava muito com a forma da cicatriz da garota a sua frente. – Mas, não se preocupe. Toda Fênix renasce e não foi diferente para essa. – afastou-se um pouco. – Você quer tentar usá-la?

– Uhum… – Lilith sentia a mão formigar e seu corpo todo parecia ter se tornado numa corrente elétrica.

Enquanto movimentava a mão, percebeu que uma delicada fumaça dourada se desprendia da ponta da varinha e ia se acumular no chão, ao redor dos pés dela.

– Incrível! – comentou espantada. – Sinto como se cada uma de minhas terminações nervosas estivessem mais do que desperta, totalmente agitadas! – começou a brincar com o objeto. – E olha só isso! – fazia a fumaça se espalhar pelo ambiente. – É simplesmente lindo!

– Parece que já temos a varinha certa! – Edna sorria, assim como as outras duas wiccanianas. – Deixe-me colocá-la na caixa para você. – guardou a varinha e depositou a caixa dentro de uma sacola, antes de devolver ás mãos de Lilith.

– Parece que agora só falta a espada! – Suélen se levantou, juntamente com a filha.

– Claro, claro! – a senhora voltou a andar pela loja. – Venham! Vou levá-las até o meu marido. Ele cuidará disso para vocês. – e conduziu-as até a outra extremidade do estabelecimento, para um lugar quente e com paredes repletas de armas brancas.

Lilith observava tudo com fascínio, pois sempre fora uma apreciadora de armas brancas, em especial espadas e adagas.

– Ruy! – Edna chamou. – Ruy, querido!

– Edna? – ao fundo do lugar havia uma fornalha e Lilith reparou em um vulto curvado sobre ela. – Estou aqui atrás. – a voz grossa avisou, enquanto o tal vulto se mexia.

– Temos visitas. – o tom alegre de Edna era contagiante. – A filha de Suélen, a Lilith, veio fazer a sua primeira compra conosco.

O homem virou a cabeça e analisou as duas mulheres paradas ao lado da esposa. Depositou em um canto o que tinha nas mãos e se levantou, espanando com as mãos um pouco da fuligem grudada na roupa.

– Muito bem… – dirigiu-se até elas. E Lilith pode reparar que o senhor atravessara um tipo de barreira quase invisível ao se afastar da fornalha.

– O que foi aquilo? – perguntou á mãe.

– A redoma mágica que ele acabou de atravessar? – Suélen viu a filha concordar com a cabeça. – É uma magia que serve para isolar um ambiente do outro, como uma espécie de bolha de sabão beeeeem resistente.

– Que interessante… – continuou a analisar aquela magia. – Eu só percebi que estava ali, depois que ele a atravessou e eu pude reparar nas ondulações que o corpo dele causou na tal bolha.

– O meu marido a usa para isolar boa parte do calor e da fuligem ali. – sorriu.

– E isso não o incomoda? – Lilith desviou os olhos para Edna. – Se aqui já é abafado, imagine ali dentro!

– Eu uso outra magia que me ajuda a resfriar o corpo. – respondeu assim que se aproximou delas. – Olhe… – virou as mangas da roupa e mostrou um manto fino que se assemelhava ao gelo. – É como uma roupa especial que não deixa o meu corpo superaquecer.

– Queridas, esse daqui é o meu marido Ruy! – Edna resolver começar com as apresentações, antes que a conversa se estendesse por demais. – Ele é o melhor ferreiro de nosso mundo! – comentou orgulhosa, recebendo em troca, um beijo terno do marido.

– Prazer. – Lilith estendeu a mão para o senhor, contudo, assim que ambos repararam no qual suja estava, desistiram do cumprimento e apenas acenaram com a cabeça.

– E essa é a Suélen e sua filha, Lilith. – apontou respectivamente.

– Eu me lembro da Suélen. – cruzou os braços. – E como vai o Selso? Ainda consegue mantê-lo na linha?

– O Selso vai bem, mas agora, quem eu preciso manter na linha não é ele. – sorriu. – Mas, os meus filhos! Essa daqui e o meu caçula são de deixar qualquer mãe grisalha antes da hora! – o comentário arrancou gargalhadas estridentes do ferreiro.

– E então, malandrinha… – passou a encarar Lilith. – Qual tipo de espada lhe agrada mais?

– Sinceramente, não consigo me decidir! – suspirou.

– Querido, a varinha que deu certo com ela foi uma das da Fênix – interveio a artesã.

– Qual delas? – perguntou surpreso.

– Olhe a cicatriz que ela tem na mão e você já vai descobrir. – apontou para a mão esquerda da garota.

Inicialmente, Lilith sentiu-se incomodada por ter pessoas apontando e observando a sua afamada marca. Contudo, convenceu-se de que aquilo não era nada demais e estendeu o braço, permitindo que Ruy a analisasse melhor.

– Interessante… – o senhor virou-se e começou a vasculhar por entre um grupo de espadas penduradas na parede a sal direita. – Realmente surpreendente… – murmurava durante a busca.

As três mulheres ficaram paradas, apenas vendo o ferreiro retirar várias espadas e colocá-las no chão, aparentemente, a que ele procurava deveria estar pendurara debaixo de todas aquelas.

– Curiosamente, hoje pela manhã eu peguei essa daqui para polir. – Ruy pegou uma espada longa e reta, cuja bainha assemelhava-se a varinha de Lilith: vermelha e com entalhes dourados. – Há anos que está aqui. Não sei por que, mas hoje quis poli-la juntamente com as outras do mesmo estilo.

– Mesmo estilo? – a garota não desviava os olhos da arma.

– Sim. – Ruy retirou-a da bainha, revelando uma lâmina brilhante e com os mesmo detalhes dourados da bainha. – As outras são tipos diferentes, mas tão raras quanto essa daqui. – entregou-a para a wiccaniana, que a pegou com avidez.

– Nossa… – surpreendeu-se ao movê-la. – É extremamente leve e fácil de movimentar. – olhou confusa para Ruy. – Essa daqui não é uma espada reta Jian, ou algo parecido?

– Exatamente! – voltou a cruzar os braços. O senhor estava impressionado por ver que a garota entendia do assunto.

– Esse estilo de espada até que é leve e requer muita disciplina e treino para usá-la. – voltou a analisá-la. – Mas, não era para ser tão leve assim para mim. E muito menos tão fácil de se executar os golpes e defesas. – comentou, enquanto testava alguns movimentos que conhecia.

– Isso quer dizer que ela é sua! – Ruy descruzou os braços e entregou a bainha para a wiccaniana. – Vocês duas simplesmente se completam! – sorriu.

– Muito obrigada! – Lilith guardou a espada na bainha e colocou-a na sacola, junto com a varinha. Sentia-se extasiada! Simplesmente amara suas aquisições.

Com espada e varinha em mãos, as duas mulheres saíram de dentro da loja. Lilith agradecera imensamente ao casal de senhores e prometera voltar ali sempre que possível.

Reuniram-se ao seu irmão e, a pedido do mesmo, contaram-lhe toda a história da compra dos dois itens.

– Me deixa ver? – pediu, lançando um olhar desejo á sacola que a irmã carregava.

– Só um pouquinho! – e sem hesitar, Lilith mostrou os dois artefatos mágicos com empolgação. – Agora eu tenho a melhor roupa, a melhor espada, a melhor varinha e os melhores utensílios e matérias mágicos que uma garota como eu poderia ter! – comentou, enquanto voltava a guardar tudo e a pegar algumas sacolas para carregar, fazendo questão de levar as duas recentes aquisições e o vestido com a Fênix.

– Mãe, isso vai acontecer comigo também?

Elyandro tentou chamar a atenção de sua mãe, puxando-a pela blusa, porém a tentativa dera errado, pois as compras o impediam de fazer isso.

– Sabe… Quando for a minha vez de comprar tudo isso… – insistiu em um tom mais alto, já que Suélen parecia distraída com a lista de compras.

– Claro, filho! – a impressão que dava era que ela havia acabado de sair de um transe. – Claro, que isso vai acontecer! De forma um pouco diferente, mas vai.

Logo após que a senhora Pontlagua terminou de responder ao garoto, reparou que a filha havia parado na frente da vitrine de uma loja de animais. Fez sinal para que Elyandro parasse também e ambos foram até Lilith, a qual admirava um belo gato, cuja pelagem lembrava uma pequena onça brasileira.

– Filha… – Suélen também observava o jovem felino. – O seu pai e eu lhe deixamos ficar com a Luka e, portanto, você já possui um animal de estimação. – através do reflexo da vitrine, viu a filha ficar desanimada. – E até já lhe demos os seus presentes de aniversário. Mas… – continuou, com um sorriso maroto – Se me lembro bem, ainda não lhe demos um presente por ter conseguido ir para Fantasy. – virou-se de frente para Lilith. – E que tal esse gato?

– Sério, mãe? – controlou-se para não sair pulando de alegria. – Que legal! Obrigada! – deu-lhe um abraço apertado em agradecimento. – Mas, eu posso levar mais de um animal para Fantasy? Ou melhor, eu posso levar qualquer tipo de animal para lá?

– Na minha época, eu cheguei a ver gente levando quatro animais de estimação! – viu a garota encará-la surpresa.

– Em Harry Potter, acho que só podiam levar um, não é Li? – Elyandro buscou pela confirmação da irmã, a qual deu de ombros.

– Não me lembro desse detalhe direito.

– Bom… Acho que já deu em comparações, não é? – Suélen bufou. – Desde manhã vocês vêm comparando quase tudo com essa tal série do Harry Potter! Acho que já deu, né? – os dois concordaram com a cabeça, não desejando discordar da mãe. – De qualquer forma, acho que você pode levá-los desde que cuide muito bem deles por lá.

– É lógico que eu vou cuidar! – Lilith voltou a se animar.

– Então, entre logo aí dentro, antes que eu desista de comprá-lo para você!

E sem mais delongas, Lilith correu para dentro da loja e, mais depressa do que qualquer ser humano normal poderia falar, pediu ao vendedor que pegasse o “gato-onça” que estava na vitrine, pois ela o levaria para casa.

———————————————————————————————

– Mãe, você também vai me dar dois animais, quando eu for para Fantasy? – todos já estavam acomodados dentro do carro e Elyandro já estava se sentindo um tanto sonolento.

– Tem tempo ainda, filho. – respondeu com um sorriso cansado no rosto. – Quem sabe até lá, você já não ganhou algum animalzinho de estimação ou encontrou um só para você?

– É… Tem razão… – bocejou e parou por alguns minutos para observar o gato cochilando no colo da irmã. – Que nome você vai dar para ele, Li?

– Bom… – acariciou o animal. – Eu pensei em chamá-lo de Edgar, o que acham?

– É um bom nome. – Suélen comentou.

– Uhum… Aprovado! – Elyandro apenas ergueu uma das mãos para fazer um sinal de positivo e, logo após, apagou de sono.

– Mãe, como vou para Fantasy?

– Você vai de avião.

– Sério? Nossa… – inconscientemente estalou a língua no céu da boca, como que reforçando a palavra “nossa”.

– Uhum… E o seu vôo partirá após a passagem de ano. – suspirou, já se sentindo saudosa. – No segundo dia de janeiro, você parte para Fantasy, assim como o seu pai e eu fizemos por quatro anos.

– Como é por lá? E o avião? – sentia-se ansiosa. – Em qual aeroporto vamos pegá-lo? Será que vou conseguir me adaptar?

– Calma, filha… – riu diante das perguntas. – Logo você verá como é tudo. E quanto ao medo de se adaptar, tenho certeza de que você se dará muito bem! – levou uma das mãos até o gato e o afagou por alguns segundos, antes de ter que usar a mesma mão para mudar a marcha do carro. – Além disso, você terá a Luka e o Edgar para lhe dar apoio no começo.

Lilith sorriu para a mãe, acariciou Edgar por mais alguns minutos e logo se entregou ao sono, assim como seu irmão havia feito.

 

 

 

 



{abril 11, 2012}   O Destino da Escolha

(capítulo inteiro…)

 

 

2º Capítulo

Lua do caçador mostre teu escolhido!

 

 

 

– Ô Tomé! Vem logo me ajudar, cara! – Leonardo tentava tirar a maca com o corpo de dentro da ambulância.

– Nem morto eu vou chegar perto desse defunto aí… – Tomé se benzeu pela décima vez naquele dia. – Se quiser eu chamo o pessoal daqui do necrotério para te ajudar! Mas eu não vou chegar perto disto aí não!

– Quê é isso cara! Larga a mão de ser maricas e vem me ajudar. Esse presunto é muito pesado! – Leandro tentava puxar a maca sozinho, mas não estava conseguindo ter muito sucesso em suas tentativas.

– Eu já disse! Não chego perto deste homem aí não! – deu meia volta. – Eu vou entrar e chamar alguém para te ajudar! – saiu correndo para dentro do necrotério, ignorando os resmungos do colega.

– Ô… Tomé! – tentou chamar o amigo de volta, mas ao levantar uma das mãos, acabou derrubando a maca, fazendo um barulho enorme. – Mas que droga!!! Por que o Tomé tem que ter esses chiliques e me largar aqui sozinho com esse morto? – abaixou-se para erguer a maca novamente. – Ah Tomé… Aguarde-me companheiro… Aguarde-me… Terei a minha vingança… – colocou-a de volta na ambulância e sentou no chão, encostando-se na roda do veículo.

Enquanto aguardava o amigo chegar com ajuda, Leonardo viu um homem alto, vestido com um sobretudo negro e grandes coturnos, passar indiferente pela ambulância, indo na direção da entrada no necrotério.

– Hei! Amigo! – levantou-se. – Aqui é o necrotério… O que você quer aqui?

O homem parou de andar, virou-se para Leonardo e lhe lançou um olhar frio ao e ameaçador. Não estava com muita paciência para ser barrado por um reles motorista de ambulância, tinha coisas mais importantes a fazer.

– Sinto muito, mas não tenho tempo a perder com você! Tenho urgência em examinar um corpo… – o homem se virou e novamente caminhou para a entrada do necrotério. – Tenha um bom dia… – desejou ao motorista, sem muito entusiasmo e sinceridade.

– E você tem autorização para examinar um corpo? – começou a seguir o homem, ignorando o estranho frio na espinha que sentia toda vez que o encarava.

– Não preciso de autorização para fazer o meu trabalho! – não parava de andar por nem um segundo. Nem ao menos diminuía o passo.

– Então você é um legista? Nunca o vi por aqui antes… Posso ver credenciais?

– Desculpe, mas não sou um legista e não preciso de credenciais para provar nada! – o motorista estava irritando-o.

– Mas que arrogância! E eu ainda estou sendo educado com você! – Leonardo pegou no ombro do homem, tentando, em vão, fazer com que parasse de andar. – Por que não me trata com mais respeito?

– E por que eu deveria tratar com mais respeito o homem que interfere em meu caminho? – diminuiu o passo e lançou um olhar sinistro ao pobre motorista. Leonardo sentiu um forte arrepio na espinha e largou o homem. Quem, diabos, era ele?

O rapaz sombrio entrou no necrotério, sem encontrar mais nenhum obstáculo a sua frente. Dava passos decididos e firmes, estava muito determinado a cumprir aquilo que viera fazer ali.

– Com licença… Quem é o senhor? – perguntou um homem com os cabelos já grisalhos, parado na porta da sala de autopsia.

– Sou Bruno… Bruno Lispector… E estou aqui para examinar um corpo. – encarou-o com um ar de autoridade, enquanto se anunciava.

– É legista? – perguntou um pouco intimidado com a postura autoritária daquele rapaz de vestes negras.

– Não.

– Hum… Então por que você quer examinar um corpo?

– Porque é a minha obrigação! – Bruno passou pelo homem e entrou na sala. – Onde está o último corpo?

– Lá fora… Um dos caras que trouxe o corpo levou um pessoal para ajudar a tirar o finado da ambulância!

– Obrigado… – virou-se, fazendo o sobretudo esvoaçar e voltou para a ambulância.

Ele ignorou as perguntas que o homem lhe fazia, não queria perder seu precioso tempo com as coisas que considerava insignificante. Assim que chegou perto da ambulância e viu os homens retirando o corpo, acelerou o passo. Iria examinar o cadáver ali mesmo!

– Podem deixar esse corpo aí no chão, mesmo! – ordenou, tirando luvas negras de dentro dos bolsos. – Irei examiná-lo aqui mesmo. – calçou as luvas e parou ao lado do cadáver.

– Você de novo, cara? – Leonardo largou a maca, nervoso com a nova intervenção presunçosa de Bruno. – Dessa vez você terá que mostrar algo que lhe autorize mexer nesse cidadão morto, senão seremos obrigados a despachá-lo!

– Muito bem… – com um ar cansado, Bruno arrancou um papel amassado de dentro do bolso. – Tenho a autorização do Papa… Serve? – colocou-o na mão de Leandro. Ele não queria mais confusão, essas burocracias só pioravam as coisas. Mas se ele se recusasse a fazê-lo, sabia que acabaria se atrasando ainda mais. Não liga para brigas, pois na certa os venceria de olhos fechados, porém, ele se importava com o tempo. Odiava demorar-se mais do que o necessário em uma missão.

Leonardo encarou-o com um olhar surpreso, pegou o papel e o leu. Percebeu que ali havia a assinatura do Papa, só não sabia se era verdadeira. Mas quando olhou para a cara de Bruno mais uma vez, sentiu novamente um frio percorrer-lhe a espinha e deixou o homem examinar o corpo. Fez sinal com a cabeça, e os homens que Tomé havia chamado para ajudar a carregar o pobre coitado, o colocaram no chão.

Bruno se ajoelhou do lado do corpo e começo a examiná-lo.

– Sem hematomas nos pulsos… No corpo… – virou um pouco o pescoço do cidadão. – He… Marcas de dentes… No pescoço… – se levantou. – Isso já é o suficiente para mim! – olhou para Leonardo. – Onde vocês o encontraram?

– Lá na Praça das Águas… – Leonardo colocou as mãos no bolso e evitou encarar os olhos de Bruno. – Algum marginal o atacou e largou o corpo do coitado em um dos bancos…

– Obrigado! – Bruno despediu-se dos homens um pouco mais animado do que quando havia chego ali e foi rumo à Praça das Águas.

Ele estava agitado. Tinha certeza absoluta de que estava no caminho certo… Bruno iria encontrar a sua presa de qualquer maneira, custasse o que custasse.

– Pô… Cara estranho esse daí, ein! – Leonardo voltou a ajudar os colegas a levantar a maca.

– Sei não Leo… Você viu como ele ficou depois que viu as marcas no pescoço do homem? – Tomé acompanhava o amigo, porém mantendo uma distância razoável do corpo.

– Agora você vai querer inventar que o canalha que matou este homem é um vampiro e que o homem que estava aqui era um caça vampiros? É seriado da Buffy agora? – riu alto. – Me poupe Tomé… – e desapareceram necrotério adentro, levando o corpo.

Bruno dirigia sua moto em alta velocidade. Queria chegar o mais rápido possível a Praça das Águas. Nada o faria perder a ansiedade de encontrar sua presa, Exceto…

– Nossa… Você viu aquele cara ali? – comentava uma garota loira para sua amiga, apontando para Bruno. – Gostei da moto!

– Hum… E eu do motoqueiro! – brincou a amiga aos cochichos. – Vamos chamá-lo aqui? – a outra concordou com a cabeça. – HEIII! MOTOQUEIRO!

Bruno olhou para o lado e viu duas lindas e charmosas garotas paradas na calçada acenando para ele. Ele sabia que deveria continuar a sua caçada, mas seu ego e desejo masculinos o fez parar de maneira exageradamente elegante na frente das garotas. Precisava exercer sua outra função de “caçador”!

– Como vão as donzelas? – desceu da moto e tirou o capacete.

– Nossa… Donzelas?! – as amigas entreolharam-se, trocando sorrisinhos marotos. – Vamos bem…

– E por acaso poderiam me dizer os seus nomes? – ele as examinava dos pés a cabeça com certa malicia e desejo.

– Sou a Letícia! – a garota jogou seus cabelos lisos e loiros para trás.

– E eu sou a Anna! – a outra ficou a mexer em seus cabelos castanhos e cacheados. – E você? Como se chama?

– Bruno! – lançou-lhes um olhar sedutor e cheio de volúpia. – Gostariam de dar uma volta de moto?

– Como? – Anna apontou para a moto. – Aí só cabe mais uma de nós e você fez o convite para as duas!

– Bom… – olhou para a própria moto e depois voltou a encará-las, nutrindo no rosto um sorriso simpático, cheio de segundas intenções. – Uma de vocês vai ter que ir na minha frente, enquanto a outra vai atrás de mim… O que acham? É um pouco perigoso, mas eu garanto que cuidarei muito bem das senhoritas.

As garotas entreolharam-se novamente. Por acaso aquele homem REALMENTE havia acabado de chamar as duas para sair ao mesmo tempo? Pelo visto ele deveria ser muito confiante e experiente nesses tipos de convite para ter certeza de que iria dar conta de duas garotas em um mesmo compromisso.

– Hum… Está bem… – Letícia olhou para a amiga com um olhar animado e ao mesmo tempo curioso. – Mas eu vou atrás!

Anna sentou-se na moto, enquanto Bruno se acomodava logo atrás dela, passando os braços rentes ao corpo da garota para que pudesse guiar a moto. E Letícia sentara logo atrás, segurando com firmeza e vontade a cintura do motoqueiro.

– Prontas? – esperou até que confirmassem e deu partida. Iria dar uma longa volta de moto com elas e… Se suas investidas fossem um sucesso… Poderia ganhar algo além de números de telefones.

A noite já estava chegando, começando a expulsar o brilho radiante do Sol do céu. Bruno parecia ter se esquecido totalmente de sua outra caça… Agora tinha olhos apenas para suas novas presas!

 

 



(um pedacinho…)

 

 

Vila Dragon.

 

 

 

Pelo o que sua mãe havia lhe contado, o lugar, aparentemente, era um pequeno vilarejo escondido por magia dentro de uma fazenda.

No começo, Lilith se perguntava se aquilo também seria como no livro de Harry Potter e procurava por uma parede de tijolinhos ou algo parecido. Porém, logo que chegaram à fazenda “Recanto Mágico”, na parte rural da cidade de Jundiaí, ela descartou a idéia da parede e começou a procurar por uma passagem secreta em alguma pedra gigante, ou por algum túnel subterrâneo…

Assim que Suélen estacionou o carro, conduziu os dois filhos até uma parte remota do lugar. Lilith achou que a mãe enlouquecera quando a viu ficar parada olhando para o próprio reflexo em um pequeno lago no meio do nada.

– Ô… Mãe? A gente não estava indo para o tal de Vila Dragon? – parou ao lado da mãe e ficou encarando-a, assim como seu irmão mais novo que também não estava entendendo nada do que Suélen estava fazendo.

– Xiiiiiuuuu… – reclamou, pedindo silêncio enquanto levantava uma das mãos e puxava um fio de cabelo. – Não fale muito alto… Os ventos daqui propagam o som muito facilmente… Essa fazenda aqui funciona como restaurante e também é visitada por pessoas normais… – jogou o fio de cabelo dentro do lago.

– Tá… Mas, por que você ARRANCOU o próprio cabelo?

– Eu não pedi para você falar mais baixo? – viu a filha fazer um gesto simples, como pedido de desculpa. – E eu não arranquei o meu cabelo! Eu só puxei um fiozinho…

– E por quê? – Elyandro retomou a pergunta da irmã.

– Vocês vão ver… – apontou para o fio boiando nas águas calmas e inabaladas.

Lilith e Elyandro pararam de encarar a mãe e passaram a observar o lago. Por alguns segundos, nada de diferente havia acontecido. Contudo, quando a primogênita da família foi abrir a boca para comentar o “nada” que estava acontecendo, ela ouviu o irmão dar um sibilo baixo de surpresa e voltou a prestar atenção na água.

No momentoem que Lilithfocalizou melhor o cabelo boiando, ela viu um brilho vir do fundo do lago para a superfície, indo em direção ao fio. A garota se agachou para ver melhor e viu uma garra, cheia de escamas em forma de plaquetas, surgir de dentro da água e agarrar o fino cabelo.

– Ai, caramba… – sussurrou assustada enquanto voltava a ficar de pé, ao lado da mãe.

Aos poucos, ligado àquela garra, começou a surgir um lindo dragão translúcido e belo como a água do lago. Ele olhou para o cabelo em suas garras e depois encarou as três pessoas paradas na margem.

– Quem jogou isto em meu lago? – a sua voz era surreal. Parecia como um sussurro alto, um som que vinha de um mundo paralelo. Lilith se arrepiou quando a frase “vozes do além” lhe veio à mente.

– Fui eu… – Suélen levantou delicadamente a mão. Ela tinha um sorriso simpático no rosto.

– Hum… – a criatura fechou a garra e o fio de cabelo desapareceu. – Senhora Suélen Pontlagua… Certo? – ela confirmou com um aceno de cabeça. – É um prazer recebê-la mais uma vez! – ele olhou para os outros dois parados ao lado de Suélen. – E quem são esses jovens ao seu lado, minha senhora? São parentes?

– Sim! São meus filhos! – ela passou os braços ao redor da cintura dos dois. – Esse é o Elyandro e essa é a Lilith, que por sinal, acabou de ingressar em Fantasy! – anunciou orgulhosa.

– Meus parabéns, jovem Lilith! – pela primeira vez o dragão sorriu. – Então, vieram fazer as compras? – desta vez, foi Lilith quem consentiu.

Ela achava que precisava fazer alguma coisa para não parecer uma estatua na frente daquele dragão que começara a se tornar gentil com ela.

– Nesse caso, senhora Suélen, é melhor você fazer o registro dos dois. Assim, eles poderão voltar quando desejarem!

– Sim, sim! – Suélen empurrou os filhos para mais próximos da beirada do lago.

O Dragão puxou a mão de Lilith e a beijou delicadamente, deixando-a molhada onde ele havia beijado. Ela se afastou sem enxugar a mão e sem desgrudar os olhos daquela criatura fantástica. Depois, foi a vez de seu irmão, mas, ao invés de beijar-lhe a mão, ele simplesmente a segurou firme e depois a soltou.

– Pronto! Já tenho os dados genéticos e teor de magia de vocês! – sorriu para os dois. – Elyandro Pontlagua e Lilith Pontlagua, vocês já fazem parte do meu banco de dados. Toda vez que desejarem entrar, basta jogarem neste lago, algo que tenha uma informação genética de vocês, assim como sua mãe fez, está bem? – ambos balançaram as cabeças afirmativamente.

– Só uma coisa… – Elyandro ergueu a mão discretamente, para chamar a atenção para si. – Por que você beijou a mão da minha irmã? – como irmão caçula de Lilith, ele havia sentido um pouco de ciúmes por ela, mesmo que a pessoa que a tenha beijado fosse um dragão.

Esse sentimento fazia parte do carinho que ele sentia por ela, mas que fazia questão de esconder. Afinal, era mais divertido implicar com Lilith do que ser atencioso com ela.

– Porque ela é uma dama…

– Então, você beijou minha mãe também! – acusou.

– Não… – respondeu tranqüilo. – Eu só beijei a mão de sua irmã, porque ela é uma dama especial para todos nós!

– Como assim? – perguntaram os dois irmãos ao mesmo tempo, surpreendendo o dragão, deixando-o sem fala por alguns instantes.

– Ora! Por que não deixamos isso para depois? Está ficando tarde! – interrompeu Suélen, assim que viu uma brecha na conversa.

Ela sabia muito bem o que o dragão queria dizer, mas, acreditava que ainda não fosse o momento certo para revelar tudo aos filhos.

– O senhor poderia abrir a passagem, por favor?

– Com prazer! – o dragão sorriu cúmplice, entendendo a tentativa da mãe em esconder aquele fato.

Ele baixou sua garra até a água do lago e passou suas unhas afiadas, abrindo um talho que foi aumentando cada vez mais, até revelar uma larga rampa que levava a um descampado ao… Céu aberto?

Lilith piscou duas vezes para clarear a visão e ter certeza do que via. Realmente, havia um céu sob o lago! Só podia ser mágica mesmo. A garota desceu a rampa acompanha por sua mãe e pelo seu irmão que estava tão fascinado quanto ela.

Lilith olhava ao redor encantada. O lugar era maravilhoso! Como ela nunca havia visto o Vila Dragon antes? O lugar era um imenso campo florido com diversas flores sortidas e brilhantes que ela não conhecia.

No meio deste campo, havia uma larga vila, apinhada de pessoas, mas todas estavam a pé. Não havia carroças, charretes, cavalos e muito menos carros ou motos. As casinhas, que logo Lilith descobriu serem lojas, eram construções parecidas com as que eram feitas na parte tradicional da Holanda.

Não havia nuvens no céu e ele era de um azul parecido com a cor escura do lago. Talvez, o que ela estivesse vendo, não fosse de fato o céu, mas o próprio lago. Tudo ali era mágico e extraordinário demais para ela.

– Está bem… A primeira coisa é… Deixa eu ver aqui… Hum…

A senhora Pontlagua parou no meio de uma das ruas da vila e pegou um pedaço de papel de dentro da bolsa e o desdobrou. Ela analisava a lista, lendo cada um dos itens e depois olhando ao redor, procurando pela loja mais próxima que venderia algum daqueles produtos.

– Olha! Vamos começar pelas suas vestimentas!

– Tá! – entusiasmou-se.

Ela adorava comprar roupas e sapatos. Não eram os seus produtos prediletos. A garota apenas se deliciava com as novas vestimentas. Não era todo dia que se sentia disposta para experimentá-las e comprá-las. Aquele, no entanto, era um dia excepcional! Seguiu a mãe até a loja sem pestanejar.

– Filha… – segurou-a pelo braço antes que entrasse no lugar. – Deixa eu te avisar uma coisa. – puxou-a para perto e sorriu. – No nosso mundo, algumas roupas especiais não são escolhidas por nós, são elas quem nos escolhem, meio que se enquadram ás nossas personalidades. Este é o caso das roupas que veremos aqui. Elas são como uniformes de Fantasy, portanto, por nós, são consideradas roupas especiais. – Voltou a andar, puxando a filha consigo. – Agora podemos ir!

– Mãe! Espera! O que vai acontecer comigo? Como assim ela vai se enquadrar comigo? – o entusiasmo transformara-se em nervosismo.

– Você vai ver!

Uma vez dentro da loja, toda a insegurança de Lilith sumiu, novamente dando lugar a um sentimento extasiante. As roupas flutuavam de um cabide para outro, pareciam dançar no ar. Os sapatos sapateavam ou simplesmente andavam por todo o piso liso.

Pedaços de pano zuniam de um lado para outro, integrando-se uns aos outros, formando novas vestimentas. O chão de madeira bem encerado dava o toque especial, assim como os espelhos nas paredes e no teto, refletindo toda aquela dança e movimentação estranha e fascinante.

Caminhou pela loja, tomando o cuidado de não esbarrarem nada. Viua mãe ir até o balcão e bater um uma divertida campainha em forma de cabide. Assim que o som agudo se propagou por todo o ambiente, uma mulher atarracada, de cabelos grisalhos e com óculos de fundo de garrafa surgiu de baixo de um amontoado de tecidos. Ela piscou algumas vezes e ajeitou os óculos antes de sair da montanha de pano. Encarou Suélen por alguns instantes e abriu um largo sorriso quando a reconheceu.

– Suélen Pontlagua! – andou até ela de braços abertos, passando reto por Lilith e Elyandro. – Há quanto tempo minha querida! Veio atrás de roupas novas para você?

– Na verdade… – apontou para os filhos depois de abraçar a pequena senhora. – Eu trouxe os meus filhos e estou atrás de roupas novas para a minha filha.

A vendedora mexeu nos óculos novamente e apertou os olhos, tentando enxergar melhor. Arrastou os pezinhos pela madeira e aproximou-se dos dois, analisando-os de cima a baixo.

– Como se chamam? – perguntou com um sorriso singelo no rosto.

– Elyandro… – o caçula adiantou-se para responder.

– Lilith… – disse no tom mais educado que pôde.

O receio voltava a crescer, pois ela sabia que o momento da escolha estava se aproximando e a garota ainda não fazia a mínima idéia de como seria. As suas roupas iriam selecioná-la dependendo de sua personalidade? Ou seria mais pelo seu porte físico? Talvez fosse por afinidade?Em Harry Potternão havia nada daquilo. Não fazia idéia de como seria a seleção.

– Hm… Lilith… Essas serão as suas primeiras roupas? – cruzou os braços, sem tirar o diminuto sorriso dos lábios.

– É… – o sorriso daquela mulher começava a lhe dar calafrios.

Lilith começava a desconfiar se aquele “sorrisinho” servia para tentar, fracassadamente, criar um clima de simpatia entre elas, ou se simplesmente aquela senhora sabia de algo estranho que aconteceria com a garota e já estava se divertindo por antecipação.

– Então, venha comigo, minha jovem! – começou a andar rumo ao fundo da loja.

Sem muitas alternativas, a garota seguiu a senhora, sentindo-se um tanto inquieta a cada passo que dava. Elas iam se aproximando de um espaçoso provador, onde várias roupas em diversas tonalidades encontravam-se penduradas nos cabides. Diferente das demais vestimentas do recinto, aquelas não se moviam. Continuavam inertes no lugar como roupas normais.

– Venha, querida! – a senhora esticou o seu braço de pele enrugada e branca. – Venha, Lilith! – agarrou o braço de Lilith e a arrastou até um dos provadores.

– Calma, senhora… – endireitou-se após ser arrastada. – Como a senhora disse que se chamava mesmo?

– Mas, eu não disse, minha querida. – os dentes surpreendentemente brancos da senhora surgiram um pouco mais. – Se quiser, pode me chamar de Loren.

– Está bem, senhora Loren. – levou os braços para trás. – Poderia me explicar como tudo isso irá funcionar?

– Seus pais não lhe disseram o que iria acontecer?

– Não… – balançou a cabeça devagar, apenas para não perder nenhuma mudança na fisionomia daquela mulher. – Minha mãe apenas me explicou que a roupa vai se enquadrar a mim.

– Ora, ora… – ela esfregou as diminutas e secas mãozinhas – Então, você verá, meu bem…. Você verá… – empurrou-a para dentro do provador.

A garota suspirou desgostosa. Aquela senhora poderia parecer um ser frágil e fraco, contudo, possui muita força nos braços e nas mãos. Talvez, mexer com roupas fizesse bem para o tônus muscular dos membros superiores.

Lilith começou a avaliar o espaço. Era um tanto apertado, contudo, aconchegante. Ao invés do costumeiro banquinho depositado em um dos cantos do provador, ali havia um pequeno puffe vermelho. Os cabides eram feitos de galhos negros firmes e retorcidos. O chão era revestido por um carpete macio e de um tom vinho. A cortina era grossa e aparentemente aveludada, mas, ao tocá-la, sentia-se a flexibilidade gélida da seda.

Havia um espelho alto e todo adornadoem ouro. Lilitho achou lindo, contudo, antes que pudesse analisar a própria silhueta refletida naquele objeto, precisou desviar dos pedaços de pano que começaram a bombardeá-la repentinamente.

– Senhora Loren! – reclamou, apanhando-os do chão. – Cuidado com isso!

– Desculpe querida! – gritou do outro lado. – Mas, quero que vá experimentando essas roupas que lhe passei!

– Passou… – resmungou desdenhosa. – Você as arremessou em mim!

– O que disse?

– Disse que tudo bem! Vou experimentar. – revirou os olhos e acomodou as vestimentas nos cabides. – Há somente vestidos?

– Não… – mais roupas foram arremessadas. – Para os garotos temos calças e blusas.

– Tá, mas, todos são assim? De corte reto? – analisou o que havia pendurado nos cabides. – Não tem nada cinturado, ou com um corte diferente?

– Depois que encontrar a sua roupa, veremos acessórios que a tornem mais confortável e atraente para você.

Lilith deu de ombros e começou a se trocar. Inicialmente, os vestidos pareciam vestimentas normais, no entanto, assim que terminava de ajustá-los ao corpo, algo surpreendentemente estranho e incomodo acontecia.

Primeiramente, havia experimentado um vermelho com um bordado delicado de fada, próximo ao ombro esquerdo. O vestido era bonito, porém a fez começar a flutuar até o ponto de precisar se agarrar à cortina para não bater no teto.

– Senhora Loren! – gritou. – Como eu faço essa coisa parar?

– Calma, querida!

– Lilith? – Suélen ouvira a filha gritar. – Tudo bem, meu bem?

– É claro que não! – a cortina se tornara uma âncora.

– Que demais! – Elyandro entusiasmou-se com a cena. – Mãe, quero flutuar também!

– Filho, você não pode flutuar… ainda.

– Dá para vocês me tirarem daqui de cima! – gritou nervosa.

– Calma… – a vendedora se aproximou dela. E a ajudou a descer um pouco mais. – Você só precisa tirar a roupa.

– Ah sim… – fez uma careta. – Algo extremamente fácil de se fazer, quando se está flutuando loucamente! – olhou para o irmão. – Elyandro, sai daqui!

O garoto retirou-se sem reclamar, o tom de voz da irmã revelava muito bem o grau de revolta. E não seria prudente contrariá-la naquele momento, já que, era extremamente vingativa.

Suélen e Loren a ajudaram a se trocar, mas nenhuma das outras cores das vestimentas com bordados de fada pareciam se “enquadrar” com Lilith, todas a faziam flutuar descontroladamente.

– Muito bem… – a senhora pegou todas nos braços e as depositou, gentilmente, em um canto da sala. – Por que não testamos essas? – pegou a mesma variedade de cores e as colocou sobre o puffe do provador.

– De novo? – Lilith bufou.

– Calma, criança! – ergueu uma delas. – Viu? Essas daqui possuem uma ave de rapina bordada no canto.

– Grande diferença… – resmungou, começando a se trocar mais uma vez.

Mais uma vez, a escolha da criatura também não fora afortunada. Assim que Lilith experimentou a primeira, sentiu algo espetar-lhe o corpo, como se a vestimenta houvesse criado pequenas garras internas que a beliscavam e arranhavam sem parar.

E por insistência de sua mãe e da vendedora, acabou por experimentar todas as cores, passando várias vezes por aquela experiência desagradável.

– Chega! – jogou no chão a última, um vestido de cor azul.

– Calma, filha! – Suélen passou carinhosamente a mão pelo braço da menina. – A roupa nem lhe machucou de verdade.

– Mas, doeu!

– Tudo bem, querida! – Loren tirou aquela pilha de vestimentas e a trocou por outra. – Experimente essas.

– Não! Novamente não! – afastou-se inconscientemente dos vestidos.

– São as últimas! – a senhora pegou uma das peças e começou a passa-la por cima da cabeça da garota.

– Ei! Ei! – Lilith se debatia em protesto. – O que você está colocando em mim dessa vez?

– Pare de se mexer tanto, garota! – Loren usou a força remanescente em seus braços para vesti-la. – Pronto! – afastou-se para observá-la melhor.

– Uma borboleta? – questionou após analisar o bordado no vestido verde que a senhora havia colocado nela.

– Uhum… – a vendedora a analisava dos pés a cabeça. – Está sentindo algo, minha querida?

– Não exatamente… – Lilith parou para se auto-analisar. Não estava flutuando e nem era arranhada por garras invisíveis. – Esse vestido é bem confortável.

– Que bom! – Suélen sorriu animada. – Então, quer dizer que estamos chegando lá. – e apressou-se em ajudar a filha a se trocar.

Verde, amarelo, azul e vermelho. Lilith experimentou todas as quatro cores e, para seu alívio, não foi atacada por nenhum tecido revoltado ou jocoso.

– E então? – as duas mulheres perguntaram ansiosas.

– Bom… – retirou o último vestido. – Não me senti desconfortável e o vermelho foi o melhor até agora. Senti-me muito bem dentro dele.

– Mas, não sentiu nada mais do que isso? – Suélen olhava para a filha como se esperasse que algo de extraordinário fosse acontecer.

– Não… – sentia-se confusa. – Por quê? Era para sentir o que?

– Hum… – Loren suspirou. – Pelo visto teremos que retomar as trocas. – virou-se para pegar todos os vestidos que Lilith já havia experimentado.

– Ah não! De jeito nenhum! – enrolou-se na cortina do provador.

– Vamos experimentar essa daqui mais uma vez? – a senhora estendeu uma das roupas.

– Nem pensar! – disse enérgica. – Já cansei de bater a cabeça no teto ou de pular de dor!

– Mas, querida… – sua mãe olhava-a com olhos suplicantes.

– Mas nada! – com essa última reprimenda, as duas mulheres se calaram. Loren chegou a baixar o vestido que segurava, quase o arrastando no chão.

Lilith percebeu que decepcionara sua mãe e a dona da loja, portanto, respirou fundo, tentou se controlar e admitiu a si mesma que deveria estar mais do que louca para concordar com a birutagem das duas.

– Está bem! Vou experimentar. – ergueu as mãos quando as viu se aproximarem com os vestidos. – Mas, vou experimentar apenas mais UMA! E serei eu quem vai escolher, certo? – as duas começaram a abrir as bocas para protestarem. – Ou isso, ou me visto com minhas roupas e desisto de toda essa loucura! – interrompeu-as.

– Se é assim que você quer… – Suélen deu de ombros, assim como a filha normalmente costuma fazer.

– E qual você vai vestir, minha querida? – Loren apontou para os vários vestidos já experimentados e espalhados pelo local.

– Eu quero… – passou os olhos por todo o local e acabou reparando em uma vestimenta de um lindo tom de vermelho, a qual estava guardada dentro de um estreito armarinho, o qual deixava apenas a barra do vestido a mostra. – Aquela roupa ali!

– Qual? – a senhora acompanhou a direção para a qual o dedo indicador de Lilith apontava.

– Aquele vestido vermelho guardado naquele armarinho ali.

– Mas, aquele vestido… – a dona da loja arregalou os olhos depois de perceber qual ela escolhera para experimentar.

– Aquele vestido o que?

– Filha… – Suélen segurou-a pela mão e a levou até o armarinho. – Esse vestido está neste lugar desde quando o seu pai e eu viemos aqui pela primeira vez. – puxou o vestido e o abriu para a filha. – Lilith, ela nunca se “enquadrou” a ninguém. – colocou-o nos braços da garota, para que ela pudesse apreciar os detalhes por si só. – Ele possui o bordado da borboleta na frente e atrás… – virou-o para ela. – Possui uma magnífica renda, desenhando uma fênix nas costas.

Os olhos de Lilith brilhavam radiantes. A renda possui um degrade lindo em tons vermelhos com as cores vinho e laranja mescladas, sendo que era toda contornada com um delicado aplique preto.

– Além dessa, existem apenas mais quatro vestidos com a fênix desenhada nas costas. – Loren pegou a vestimenta com cuidado dos braços de Lilith. – Mas, se não me falha a memória, essa é a única que pertence ao clã da borboleta.

– Falando nisso, por que vocês estavam me dando apenas três tipos de criaturas bordadas para vestir?

– Por que, as mulheres são divididas em três tipos de clãs. As borboletas, as fadas e as aves de rapina. – a senhora passou a mão pelo tecido enquanto explicava. – E você é escolhida a partir da sua personalidade. A partir do momento que se veste, o vestido sentirá se você se enquadra ou não ao perfil do bordado.

– Entendi, por isso a fada e a ave me repeliam daquela forma, não é? – cruzou os braços irritada. – Mas, não existe um clã da fênix? Da borboleta fênix ou algo do gênero? – apontou para o vestido que havia escolhido.

– Não. – Suélen brincava com os cabelos longos da filha. – Não existe, por isso que é uma vestimenta rara essa que você escolheu.

– De qualquer forma… – Loren começou a dobrar a vestimenta. – Esse vestido é único! Até hoje, ninguém se enquadrou ao perfil dele! É preciso satisfazer tanto as características da borboleta quanto da fênix

– E daí? – descruzou os braços e colocou uma das mãos sobre a roupa. – Eu quero experimentá-la.

– E se ela queimá-la? – Suélen preocupou-se.

– Me queimar? Como assim?

– Não sabemos como ela irá reagir. Ninguém nunca ousou experimentá-la antes. – Loren colocou o vestido sobre uma cadeirinha de madeira. – Ou melhor, ninguém nunca realmente se interessou por ela.

– Isso é verdade. – a mulher soltou o cabelo da filha. – Eu me lembro de me sentir encantada pelo vestido, mas o meu interesse se prendeu no meu primeiro vestido do clã da fada. – sorriu saudosa. – Por mais que esse daqui fosse encantador, o meu vestido parecia me chamar. Não havia como superar!

– Pois bem… – voltou a pegar o vestido nos braços. – Essa roupa aqui está me chamando. Posso sentir! – passou o olhar de Suélen para Loren. – E se for ela? E se eu me enquadrar a ela? – disse teimosa. – Nunca saberemos até que eu experimente, não é?

– Está bem… – a senhora balançou as mãos, desistindo da discussão. – Experimente, então!

– É o que vou fazer! – respondeu no mesmo tom.

Passou os braços por dentro do vestido e permitiu que ele deslizasse sem problemas por seu corpo, encaixando-se perfeitamente. Terminou de se arrumar e voltou a encará-las.

– Podem parar de prender a respiração. – brincou. – Eu me vesti, não me queimei e me sinto extremamente bem!

– Não estamos mais prendendo a respiração por causa do suspense. – Loren parecia pasma.

– Como assim?

– Filha, você está literalmente radiante! – Suélen levou uma das mãos a boca.

Lilith girou sobre os calcanhares e foi em busca do seu próprio reflexo. Agitada, empurrou a cortina do provador que usara antes, desobstruindo sua visão.

– Oh, nossa… – murmurou diante da imagem.

A garota estava envolta em um brilho suave, porém marcante. O vestido parecia dançar em seu corpo. Seus cabelos emitiam uma cálida luminosidade rubra e sua pele parecia possuir luz própria.

Aos poucos a imagem radiante começou a se apagar, voltando à cena habitual. Lilith suspirou desgostosa pelo momento durar por tão pouco tempo.

– É…  – virou-se para as duas mulheres. – Parece que acabei escolhendo o vestido certo. – comentou para aqueles rostos sorridentes.

 

 

 



{abril 8, 2012}   O Destino da Escolha

1º Capítulo

Doce luar…

Já era noite. Mayara estava na sacada de seu apartamento. Seus olhos negros, apáticos, sem emoção, vagavam pela escuridão. Buscavam uma resposta. Buscavam algo.

– Onde está você…? – respirou fundo. – Será… Que nunca em minha vida… Conseguirei ao menos ver a cor de seus olhos? – abaixou a cabeça e passou a observar o pouco movimento que havia na rua.

Mayara olhou para o horizonte, viu uma rala luminosidade surgindo. O amanhecer estava próximo e nada de seu tão esperado “amigo”.

Entrou em seu apartamento, deixou a porta da sacada aberta. Quem sabe ele não apareceria e entrasse para buscar aconchego e abrigo para descansar? Foi até o seu quarto e se jogou na cama, abraçou seu travesseiro e fechou os olhos. Ainda nutria o desejo de poder encontrá-lo…

Longe dali… Há uma praça totalmente deserta, exceto por um homem dormindo no banco… Mas… Ele realmente apenas dorme?

– Droga! Me distrai demais! – um jovem corria, parecia fugir de algo. – Preciso encontrar algum lugar para me esconder… – avistou ao longe, um saguão abandonado. – Perfeito! – correu até lá e somiu dentro da escuridão que a velha construção gerava.

 

 

O tempo passa, amanhece, e ninguém parece se importar com o homem dormindo no banco, até que…

 

 

– Com licença, senhor! – Jorge, que estava fazendo uma ronda na praça, encontrou o homem no banco, sem reação alguma. – Com licença, senhor, desculpe, mas… Não pode ficar dormindo aqui! É… – parou rapidamente de falar quando tocou a pele daquele senhor e a sentiu totalmente fria. – O senhor está bem? – Jorge o sacudiu levemente com uma das mãos. Enquanto o chacoalhava, percebeu um ligeiro filete de sangue escapando da boca e do pescoço. – Senhor? – resolveu pegar seu pulso, mas isso já era desnecessário. O homem estava morto! – Droga! Tinha que ser justo no meu turno? – pegou o rádio e pediu que enviassem uma ambulância até a Praça das Águas. Olhou, novamente, para o homem e sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha, benzeu-se. O que poderia ter matado aquele homem?

Alguns minutos após o chamado, a ambulância chegou ao local e recolheu o corpo. Apesar de seu trabalho ser recolher pessoas quase mortas e não mortos, não podiam largar o corpo daquele pobre senhor lá na praça até que o furgão do IML chegasse. Somente hoje, dariam uma ajudinha aos amigos e levariam o corpo ao necrotério.

Mayara acordou após o meio dia, estava de férias no serviço, não precisava acordar cedo por enquanto. Poderia dormir e acordar quando quisesse. Teria algum tempo para poder esperar por seu tão misterioso “amigo”. Onde será que ele estaria?

Foi até a cozinha, pegou um suco de laranja na geladeira, serviu-se de um farto copo da bebida e foi novamente até a sacada. A porta permanecia aberta, mas nenhum vestígio de que tivessem passado por ela.

Que desapontamento!

Será que nutria um desejo impossível de se realizar?

– É… Você não apareceu… Mais uma vez… Você não pareceu… – voltou ao quarto, abriu a janela e ficou a admirar as lindas árvores que a Praça das Águas tinha.

Reparou em uma ambulância saindo de lá. O que havia acontecido? Algum acidente envolvendo assaltantes? Ou a pessoa foi apenas mais uma vitima do acaso? Não tinha tempo para tentar descobrir o que era, tinha que ir buscar sua linda sobrinha na escola, havia prometido à irmã que pegaria Laura na escola de inglês, já que Beatriz não podia mais sair de carro ou andar longas distâncias por causa do oitavo mês de gravidez.

Olhou para o relógio. Á que horas a sobrinha saia da aula, mesmo? Apoiou-se na parede enquanto pensava. Sentiu como se algo passasse como um fleche por sua memória e se lembrou. Ela sairia à uma da tarde! Olhou para o relógio mais uma vez… Estava atrasada!

Trocou-se rapidamente, saiu do apartamento sem se importar muito em fechar a janela e a porta da sacada. Tinha que correr. Não queria deixar a querida sobrinha esperando.

Foi até a garagem e pegou a sua moto. Uma Honda preta, linda, sempre brilhante por causa dos muitos cuidados que Mayara dedicava a ela. Aquela moto era como se fosse de estimação.

Saiu apressada. Provavelmente Laura já estivesse saindo da aula. Passou correndo pela praça, sem se importar muito em tentar descobrir o porquê de a ambulância ter parado por ali. Afinal… Estava com pressa, não podia mais perder tempo!

Após alguns minutos de exasperação e muita corrida, passando por sinais já amarelos e cruzando os espaços vazios entre os carros para evitar congestionamentos, Mayara conseguiu chegar até a escola de inglês.

Mas, apesar de toda a correria, não conseguiu chegar antes que a aula acabasse e Laura já a esperava no portão.

– Desculpe o atraso Lá! Perdi a hora! – desculpou-se enquanto retirava o capacete e estendia outro para a sobrinha.

– Tudo bem tia May… Eu saí faz pouco tempo! – Laura, colocou o capacete e subiu na moto, deixando o material entre ela e a tia, para que não caísse.

Mayara esperou a sobrinha terminar de se ajeitar e saiu com a moto. Agora não estava mais com tanta pressa, não precisava correr ou fazer todas aquelas loucuras que havia feito para tentar chegar a tempo. Precisava dar um bom exemplo e zelar pela segurança da sobrinha que agora a acompanhava.

– Lá… O que você acha de pararmos em uma sorveteria, pegar um sorvetinho e dar uma volta por aí? – perguntou enquanto esperava o sinal abrir.

– Acho legal! – pegou o celular e o colocou com uma das mãos por baixo do capacete. – Só me deixa avisar a minha mãe que vou sair com você… – enquanto ligava para a mãe, com a mão que estava livre do celular, ela segurava a cintura da tia, para que não caísse quando Mayara desse a partida na moto.

 

……………………………

– Como será que esse homem morreu? – Tomé olhava de tempos em tempos pela janelinha que ficava dentro da ambulância. Queria vigiar o corpo, estava apreensivo.

– Deve ter sido assaltado, tentou revidar e os canalhas deram cabo da vida do infeliz… – respondeu Leandro, batucando as mãos no volante enquanto esperava o sinal abrir.

– Tem certeza? – fechou a janelinha. – Você viu as marcas no pescoço do cara? Até parece coisa de… Vampiro… – Tomé benzeu-se.

– Ha, ha, ha, ha… Vampiro? Tá doido Tomé? Desde quando este tipo de coisa existe? – Leandro ria enquanto dava partida no carro. – Andou assistindo muitos filmes de terror, ein!

– Não tô de brincadeira, não! – abriu novamente a janelinha e ficou a observar o defunto, como se esperasse que ele levantasse a qualquer momento. – Você não viu as marcas no pescoço? São dois buraquinhos, que nem aqueles que dizem que os vampiros fazem no pescoço da gente quando mordem… O maldito deve ter-lhe sugado a vida!

– Ora Tomé… Deixa de paranóia… – Leandro deu uma breve olhada na direção do amigo. – E vê se deixa o cidadão em paz! Ninguém gosta de ser observado. Respeite a morte do infeliz! Dá-lhe o descanso merecido, homem! – com uma das mãos fechou a janelinha. – Você vai ver… Quando fizerem a autópsia, vão dizer que o pobre coitado morreu devido a um golpe certeiro na nuca, ou por overdose de alguma droga injetada diretamente na artéria dele. Não vai haver nada sobre ter sido sugado até a morte…

– Sei não Andro… Tomara… – se acomodou no banco, ligou o rádio e fechou os olhos. Queria tentar dar razão ao amigo e esquecer aquele defunto.


……………………………

Depois de terem passado na sorveteria e pego uma casquinha cada uma, foram até a Praça das Águas darem uma volta.

– Nossa… Faz tempo que não ando por aqui. A ultima vez… Foi quando eu fiz treze anos! – encarou a tia e deu um sorriso. – E foi você quem me trouxe! Pegamos um sorvete e curtimos o meu aniversário no seu estilo… Sem muita frescura! Acho que aquele foi um dos melhores.

– É… – suspirou e olhou para a sobrinha. – Eu digo para sua mãe não encher as suas festas de frufrus e frescurinhas. Mas ela nunca me ouve… Sempre diz a mesma coisa.  “Festa de filha minha tem que ser sofisticada!” – fez uma imitação perfeita da irmã, arrancando risos de Laura e deu uma bela lambida no sorvete. – É mesmo… Há muito tempo que não vínhamos aqui juntas. Faz praticamente dois anos!

Mayara e Laura andavam tranquilamente pela praça e, apesar de não ser intencional, ambas atraiam os olhares de muitos rapazes, pois esbanjavam beleza e feminilidade a cada passo que davam ou gesto que faziam.

Laura estava no auge de seus 15 anos, dona de um corpo bem escultural para sua idade e de um brilho vivo e fascinante nos olhos. Mayara já estava com seus 23 anos e tinha um corpo belamente esculpido e sedutor, um rosto belo, encantador e aparentemente jovem para a sua idade.

Mesmo que não quisessem admitir, sabiam que eram atrativas. Sabiam que eram fuziladas por olhares ávidos aonde quer que passassem, mas tentavam ignorá-los e continuar seguindo seus caminhos como se aqueles observadores jamais existissem.

– Tia… O que você acha de nos sentarmos um pouquinho? Estou começando a ficar cansada… – Laura havia terminado seu sorvete e já procurava por um banco vazio.

– Tá bom… – Mayara olhou em volta e viu um banco vago. – Vamos sentar ali! –foram até ele com passos apressados, para evitar que ninguém mais sentasse nele antes delas e lhes roubassem o lugar. Assim que sentaram no banco, se acomodaram como queriam, sem se importarem com olhares críticos e com opiniões alheias. Não estavam acomodadas de modo indecente, apenas não estavam sentadas de maneira “tradicional”, com braços e pernas espalhados espalhafatosamente.

Enquanto conversavam e observavam o movimento de pessoas e animais pela praça, inexplicavelmente, Mayara começou a sentir um cheiro forte e rançoso. Sem se dar conta do que fazia, instintivamente, começou a procurar de onde ele vinha, mas não encontrava a sua fonte. O cheiro estava começando a deixá-la atordoada.

– Laura… Você está sentindo esse cheiro forte?

– Cheiro forte? De que?

– Um cheiro forte de… – parou para tentar distinguir o cheiro. Assim que conseguiu reconhecer o odor, arregalou os olhos. – Sangue! – ela havia dito mais para si mesma em surpresa do que como resposta para a sobrinha.

– Ai! Credo tia! Sangue?

– É… É sangue! Você não está sentindo?

– Eu não! – torceu o nariz e levantou as mãos, fazendo um movimento de negativa. – E nem quero sentir!

– Estranho… Mas eu estou sentindo e muito bem! – olhou em volta. – Está aqui perto e parece ainda estar um pouco fresco.

– Fresco?! Cheiro de sangue fresco?! – fez uma careta de horror e asco. – Credo tia! Que nojo!

Mayara resolveu se levantar para procurar melhor. Foi neste momento, enquanto se levantava que viu uma mancha de sangue impregnada no encosto do banco onde estavam acomodadas.

– Olha! Acho que é daqui! – apontou para a mancha. – Deve ser recente!

– Ai… – Laura se arrepiou e deu um pulo do banco, ficando de pé ao lado da tia. – A pessoa deve ter se machucado feio. – comentou ao ver o tamanho da mancha.

– É… – ficou observando o sangue por alguns longos minutos. Estava desconfiada.

Após mais algumas horas na praça, caminhando e especulando sobre a origem do sangue, resolveram voltar antes que ficasse tarde demais.

Mayara levou sua querida sobrinha até a casa de sua irmã e depois, sem paradas, voltou para o seu apartamento. Assim que entrou, foi até a sacada e ficou a admirar o pôr do sol.

Era tão lindo e nostálgico…

Se ela pudesse, ficaria o resto da vida apreciando aquele espetáculo da natureza. Ficou ali até que o sol sumisse no horizonte, atrás das serras que rodeavam a cidade. E sem saber o porquê, a mancha de sangue repentinamente voltou-lhe à mente.

Alguma coisa a incomodava…

Algo estava estranho…

Por que ela havia sido a única a sentir aquele cheiro?

Será que estava retornando aos velhos tempos?

Não!

Isso jamais poderia acontecer!

Gostava de usar as habilidades remanescentes, mas não permitira retornar totalmente ao que era.

Olhou para a praça como se procurasse por algo e sentiu um leve arrepio percorrer-lhe a espinha. Fechou os olhos e uma sensação de formigamento e leveza parecia tomar-lhe o corpo todo. Deu um pequeno sorriso e abriu os olhos.

– Sabia! – entrou no apartamento e foi até o seu quarto. – Sabia que esta necessidade de encontrar alguém não era delírio! Eu tinha razão! Há um “alguém” por perto!

Ela colocou um shorts, uma blusinha leve, coturnos e um sobretudo roxo, quase preto. Todas as peças, com exceção do sobretudo, eram negras. Sem demoras, ela saiu de seu apartamento, pegou sua moto e passou a seguir seus instintos. Ela estava determinada a encontrar este “alguém”!

Decidiu voltar ao local do crime: o banco com a mancha de sangue na Praça das Águas! A partir desse ponto, ela iria seguir todos os rastros que encontrasse e que a levassem até a pessoa tão aguardada.

– Apesar do sangue já ter penetrado no banco, ainda é recente… – disse para si mesma ao passar a mão pela mancha.

Era como se fizesse anotações mentais a cada narrativa que fazia de seus passos. Olhou em volta e percebeu que não haviam sinais de briga. Nenhum galho quebrado, nenhuma marca no chão.

– Pelo visto a vitima foi surpreendida e não conseguiu revidar…

Olhou para o céu e viu a lua, depois olhou para o chão novamente e viu algumas pegadas marcadas na terra, passando entre as árvores.

– Pelo o que parece, perdeu a noção do tempo e ao ver que já iria amanhecer, correu velozmente dentre as árvores em busca de um abrigo, por isso deixou tanto sangue do homem se desperdiçar…

Começou a seguir as pegadas e em poucos minutos, viu um saguão abandonado, bem escondido pelas árvores da praça.

– Hum… Parece-me um ótimo lugar para se esconder… Escuro… Escondido… Abandonado… Perfeito! – entrou no saguão tomando cuidado para não fazer nenhum tipo de barulho, o menor ruído poderia arruinar tudo.

Mayara parou de andar, estava com a sensação de estar sendo observada. Fechou os olhos e se concentrou no ambiente ao redor. Sentiu algo se mover velozmente por suas costas, escondido pelas sombras.

Resolveu invocar apenas um pouco do seu “eu” antigo. Então, abriu os olhos e apurou os ouvidos, teve a impressão de estar ouvindo a respiração de mais alguém.

Deu um pequeno sorriso, voltou a fechar os olhos e apurou ainda mais os sentidos, tentando concentrar-se com maior tenacidade. Percebeu que algo iria passar novamente perto de seu corpo!

Abriu mais uma vez os olhos e rapidamente, numa velocidade surpreendente e inesperada, colocou o pé no caminho, fazendo com que a pessoa se espatifasse no chão.

– Quem é você? – Mayara se agachou ao lado da pessoa caída. – E o que faz aqui?

– Não é da sua conta mulher! Deixe-me em paz! – era a voz grave de um homem, com aparentemente 25 anos.

– Eu sou Mayara Campelli… – foi até a parede mais próxima e se apoiou nela.

– Uhum… E por que você acha que eu queria saber seu nome? – havia sarcasmo e irritação naquela voz.

– Que mau humor… – Mayara acendeu uma pequena lanterna e a deixou no chão apontada para o teto, dando uma rala luminosidade ao lugar. – É um estado emocional típico de um vampiro que acabou de cair em uma peça humana.

– Vampiro?! – ele se aproximou da luz, deixando que Mayara visse seu lindo rosto. Ele realmente aparentava ter quase a mesma idade que ela. – Então… Você sabe o que sou?

– Sim. Desde o começo. – respondeu tranquila, como se o fato de estar cara a cara com um verdadeiro vampiro fosse algo trivial e rotineiro.

– Não sente medo de mim? – aproximou-se perigosamente dela e colocou uma das mãos próxima ao pescoço de Mayara.

– Se eu o temesse, não teria vindo até aqui, não é mesmo? – deu um pequeno sorriso malandro, desafiando o predador.

– Vejo que é corajosa e… – desceu a mão, pelo corpo da mulher sem tocá-lo, e baixou o olhar, dando uma completa “escaneada” nas curvas que ela possuía. – Bela.

– Hupf… Obrigada! Mas, se você continuar a me azarar desta maneira, perderei minha compostura com você! – fechou o sobretudo e lhe lançou um olhar de ameaça e advertência. – Posso fazer coisas piores do que dar uma simples rasteira. Conheço muito bem sua raça e sei como feri-lo da maneira mais dolorosa possível.

– Ha,ha,ha… Desculpe! – o vampiro deu boas risadas por causa da intimidação da humana. Não estava levado nada a sério – Sou Marcos… Marcos Ac’Daro!

– Hum… – de inicio não havia gostado das risadas de deboche de Marcos, mas depois se deu por vencida e sorriu. – Pelo visto eu consegui quebrar um pouco o seu mau humor. Disse-me até o seu nome!

– Digo por que você é diferente! – Marcos se afastou um pouco. – Jamais uma pessoa ficou tão calma assim como você, depois de descobrir minha identidade. Jamais alguém veio ao meu encontro, sabendo que sou um vampiro!

– Sim… Sou diferente. Mais diferente do que você é capaz de imaginar. – Mayara abaixou o olhar e depois voltou a encarar o vampiro. – Já cacei muitos de tua espécie. Já fui uma assassina mais fria do que qualquer vampiro.

Marcos exibiu as presas, pulou para as sombras e deixou que seus olhos ficassem com um tom vermelho brilhante. Pareciam duas brasas flutuando na escuridão.

– Uma Caçadora! – apontou um dedo acusador para ela. – Então, você veio até aqui para me matar?

– Apesar de já ter matado muitos vampiros, lobisomens, bruxos, anjos caídos e demônios… – enquanto falava erguia os dedos, enumerando. – Enfim… Apensar de ter matado vários seres míticos à sangue frio, eu não vim te matar. Como disse antes, eu já FUI uma assassina de criaturas da noite, não sou mais! – se desencostou da parede e apagou a lanterna. – Pronto… Agora você tem uma grande vantagem sobre mim! Se sente mais seguro?

– O que quer comigo, então? – apagou seus olhos e escondeu suas presas.

– Quero ajudá-lo. – passou pelo local de onde vinha a voz, quase encostando seu braço no peito de Marcos. – Eu posso ter desistido de ser uma caçadora, mas ainda existem muitos que continuam no ramo. E um deles está aqui nesta cidade!

– Hupf… E você realmente espera que eu caía nesta ladainha?

– Bom… Se você não “cair nesta ladainha”, colocará sua existência em jogo! – Mayara foi até a entrada do saguão. – Você não pode rastreá-lo, mas ele pode rastrear você!

– Rastrear-me? Ha… Impossível!

– Impossível? Como você acha que eu o encontrei? – saiu do saguão, sem olhar para trás. – Se você não quer acreditar em mim, azar! Desejo-lhe muita sorte, pois vai precisar! – fez um pequeno aceno com a mão. – Bom… Até mais… Talvez!

– Espere! – Marcos correu até Mayara e pegou em sua mão. – Você me convenceu! – virou-a de frente para ele. – Peço que me ajude!

– Ajudarei… – Mayara ficou impressionada com as feições tão belas que Marcos possuía.

Ele era dono de olhos cor de mel, penetrantes e sedutores. Estava hipnotizada por aquele olhar intenso sobre sua pessoa.

– Então, o que faremos? – a pergunta a tirou do transe.

– Iremos para o meu apartamento. Você ficará mais seguro lá! – se virou e continuou a andar.

– Hum… Isso está me parecendo uma indireta. Tem certeza que só quer me levar até o seu apartamento apenas para me proteger, ou… Tem algo a mais em mente? – lançou um olhar malicioso e cobiçoso sobre ela.

– Claro! Com toda certeza! Desde o começo estava planejando levar um vampiro até a minha casa para ter uma “noitada” com ele! – respondeu sarcástica e grossa. Não gostava que tirassem segundas intenções de suas “boas” ações.

– Nossa… Desculpe! Não queria irrita-la! – Marcos colocou as mãos nos bolsos. – Seu apartamento fica muito longe daqui?

Mayara não respondeu, ainda estava irritada com a brincadeira do vampiro. Ela tinha certeza de que se ele fizesse mais alguma brincadeirinha do gênero, o largaria ali. Á mercê do caçador.

– Oras… Vamos Mayara! Foi só uma brincadeira. – o vampiro se colocou ao lado da humana. – Não precisa ficar assim tão irritada.

– Não me trate como se fossemos amigos, vampiro! – ela o fuzilou com o olhar. – Não o quero dirigindo-se a mim pelo nome! Perdi minha simpatia por você!

– Nossa! – o vampiro afastou-se alguns centímetros dela. – E quer que eu a trate como? Quer que a chame de humana?

– Pois bem! Chame-me de humana, só volte a me chamar pelo nome quando eu chamá-lo pelo seu! – Mayara avistou sua moto e acelerou um pouco o passo.

– Que seja como quer! Até acho justo, já que acabei de irritar a humana que me oferece ajuda! – comentou aborrecido com a grosseira dela.

Marcos estava tentando fazê-la sentir que ele realmente estava arrependido. Mas pela expressão séria no rosto da mulher, percebeu que sua tentativa havia fracassado. Chutou uma pedrinha que estava em seu caminho.

– Não tente me agradar agora! – Mayara pegou o seu capacete e estendeu outro para Marcos. – Tome! Coloque isso! – enquanto entregava o capacete, ela já começava a sentar em sua moto.

Ele pegou o capacete e o colocou sem dizer uma palavra. Sentou-se atrás dela e segurou em sua cintura com naturalidade.

– Tire as mãos daí!

Marcos soltou um ligeiro suspiro e colocou as mãos nas laterais traseiras da moto enquanto ela dava a partida e os tirava dali, rumando em direção ao seu apartamento. Por mais que não quisesse demonstrar, Mayara sabia e sentia que estava feliz por finalmente encontrar a pessoa que tanto aguardara.

 

 



et cetera
Devaneios da Lua

Sobre tudo e ao mesmo tempo nada

Crônicas da Gaveta

Relatos amadores por @Cardisplicente

Sara M. Adelino

Tradutora. Revisora. Redatora.

WILDsound Festival

Weekly Film Festival in Toronto & Los Angeles. Weekly screenplay & story readings performed by professional actors.

Destino Feliz

Seu Blog de Viagens, Roteiros e Experiências

dmaimalopes

A great WordPress.com site

delenaalways

A fine WordPress.com site

evilking.wordpress.com/

Comic Book and related work by Danilo Beyruth

ibooksney

EM ANDAMENTO

My Broken Throat

Até que o medo se desfaça... Um engano do destino

nicoleravinos

"Um dia sem sorrir é um dia desperdiçado"

Action Nerds

Bonecos, tirinhas e nerdices. Aqui você encontra tudo isso!

Baú de Histórias

Em construção!

%d blogueiros gostam disto: