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Abusado – O dono do Morro Dona Marta

 

 

Autor: Caco Barcellos

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“Os tiroteios faziam chover até em dia de sol forte na Santa Marta. Os ‘chuveirinhos’, alegria das crianças, eram provocados pelos projéteis de vários calibres que sempre rompiam as tubulações de água potável devido a uma rara característica da velha rede de distribuição, criada nos tempos dos mutirões de Dom Hélder Câmara.” – trecho retirado do livro Abusado – O dono do Morro Dona Marta.

Abusado – O dono do Morro Dona Marta é um dos grandes livros reportagens do conhecidíssimo jornalista Caco Barcellos. Na obra, Barcellos expõe parte da história da favela Santa Marta, bem como suas guerras do tráfico. É um livro cheio de implicações éticas, morais, legais.

Durante a leitura, fica claro que para se entender a violência urbana instalada no Rio de Janeiro (que pode servir de espelho para outras cidades do país e do mundo), é necessário compreender como pensam e como agem os criminosos que impõem o terror, explorar os motivos que os levam a isso e enxergar os “dois lados da moeda”.

Assim sendo, o repórter constrói a narrativa através da trajetória do personagem mais conhecido: o traficante Marcinho VP (nesse livro, não conseguimos dizer ao certo se existe um personagem principal, visto que várias histórias vão sendo contadas). A infância de Marcinho VP, tratado na obra como Juliano, se passa inteiramente na favela.

Filho de pais nordestinos, Juliano entra para o quadro de crianças que abandonam os estudos bem cedo, para poder ajudar em casa, sendo que no caso do personagem, seria ajudar “com a birosca do pai”.

Sem salário, sem perspectivas profissionais e/ou de futuro, Juliano, vulgo Marcinho, começa a fazer bicos que o levam rapidamente ao envolvimento com o tráfico de drogas.

Até este ponto, a história é bem parecida com a que ouvimos falar por aí, sobre jovens de favela que entram para o tráfico, ou por falta de opção ou por essa ser a realidade constante com a qual estão acostumados. No entanto, a trajetória contada ali não é de um simples traficantezinho, Marcinho VP é um dos criminosos mais famosos do Brasil!

Inicialmente, não existem discrepâncias da vida deste personagem para a de tantos anônimos que tombam pelas balas entre facções e polícia, contudo, o diferencial está na ascensão “meteórica” de Juliano dentro do tráfico.

Em poucas semanas, VP se torna “o maior avião da boca” e em seguida conquista o respeito e a confiança dos líderes, demonstrando coragem incomum para um iniciante em “situações de combate”.

Após duas guerras de morro, várias prisões e uma temporada na Bahia, Marcinho consegue tomar para si o controle da favela onde viveu a infância, local onde também vivem os amigos mais próximos e a família. Durante o enredo, percebe-se que este é o momento de glória de Juliano e em que as atenções se voltam para ele, seja pela mídia, policiais ou de alguns conhecidos (amistosos ou não). Tal “chamariz” não acontece somente por causa de sua ascensão como traficante, mas, também, por ocasião das gravações de um clipe de Michael Jackson na Santa Marta.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, Juliano se mantém como líder e fora da prisão por vários anos. Além disso, ele impressiona pelas amizades que acabou fazendo com algumas celebridades, como: o cantor Zeca Pagodinho, os irmãos Moreira Salles, cineastas e donos do Unibanco.

Os tais contatos “intelectuais” e famosos de Juliano, durante o enredo, mostra que acabaram caindo no conhecimento de alguns e repercutindo entre os comandantes de outros morros ligados ao Comando Vermelho (C.V.). O que ajuda a difundir o seu apelido de Poeta e a crença de que o chefe da Santa Marta era um doidão que: matava pouco; desprezava dinheiro; defendia idéias esquisitas; e tinha a pretensão utópica de se tornar uma espécie de embaixador do tráfico no Rio de Janeiro.

Adiante na história, falido com as incursões da polícia, o traficante conta com a ajuda de João Moreira Salles, quem o financia com uma gorda mesada no exterior. Tal dinheiro é dado com o intuito de que Marcinho VP abandone o tráfico e a criminalidade. Contudo, quando a mídia descobre a relação entre ambos, o cineasta recua e Juliano se vê obrigado a retornar para o Brasil onde é preso e tratado como o traficante mais perigoso do país, mesmo estando arruinado financeiramente e com o grupo desorganizado.

Abusado é uma verdadeira lição sobre a lógica e as sinuosidades de operações das grandes corporações criminosas, que comandam o tráfico de drogas e outras atividades criminosas no Rio de Janeiro e em outros estados. Através da história de Juliano, obtém-se um retrato histórico da ocupação do morro pelo Comando Vermelho (C.V.), principal facção criminosa no estado.

Aliás, a meu ver, Juliano é um personagem extremamente fascinante! Um criminoso com refinado gosto literário, preocupado com o destino da comunidade favelada do Rio de Janeiro e cujos contatos, como se pode constatar, iam dos violentos chefes do C.V. até importantes intelectuais cariocas.  E além de ser a visão única do jornalista sobre um ícone da violência moderna, VP é uma pequena releitura do tema bandidagem. Longe da sociologia e do antropologismo de estudos anteriores, o livro do consagrado repórter é uma pequena exposição ao bandido moderno.

Com o pretexto de fazer uma biografia do traficante Marcinho VP, o escritor mergulha no submundo do crime no Rio de Janeiro, e nos permite perceber que, em meio a uma espécie de guerra no fim do mundo, gangues rivais se digladiam e transgridem a lei de maneira violenta, mas que ali também se realizam processos de formação da identidade, agregação coletiva e laços de sociabilidade.

Realmente, Caco Barcellos reporta o desenvolvimento da cidadania dos moradores da Santa Marta, seus esforços e conquistas em um morro cravado na Zona Sul carioca. Porém, além do lado “bom’, o repórter também expõem o lado “mau”, com tudo o que uma favela pode ter de ruim, como: as péssimas condições de higiene; a pobreza; a desesperança; o medo da violência do tráfico; e a brutalidade da polícia.

Não se trata apenas de uma “romantização” da vida de um bandido superestimado, mas a obra traz em suas numerosas linhas uma versão da história desconhecida de todos e de nos mostra um dos grandes personagens de nossa literatura.

Neste livro impressionante, Barcellos denuncia policiais, esmiúça combates, reconstrói a trilha de moradores de rua e das favelas e mostra que a vida de um líder de morro pode ser das mais improváveis e inusitadas possíveis. O livro é um relato de vida e de morte que mostra claramente o submundo da criminalidade carioca. Eu realmente recomendo essa incrível obra do jornalismo literário: Abusado – O dono do Morro Dona Marta.

 

 

“Eu sou o monstro que vocês criaram. Vocês me mitificaram. Vocês precisam disso para sobreviver.” – fala de Marcinho VP, vulgo Juliano, retirada do livro Abusado – O dono do Morro Dona Marta.

abusado

 

 

 

Curiosidade:

Durante a produção do livro, Caco Barcellos esbarrou em uma série de questões éticas, morais e legais. Mas como era de se esperar de um jornalista com sua trajetória, essas questões foram tratadas com muita idoneidade.

Uma das medidas adotada pelo jornalista foi omitir nomes para “evitar intriga, perseguição ou punição jurídica às fontes“, como esclarece em nota no inicio do livro.

Contudo, após o lançamento da obra em 2003, Barcellos acabou sendo o perseguido, precisando sair do país por um tempo, devido à intensidade das ameaças que recebia.

Em 2004 o jornalista retornou ao Brasil, pois o livro se tornou o grande vencedor do Prêmio Jabuti 2004 na categoria Reportagem e Biografia.

Aliás, reza a lenda que o jornalista chegou a abrigar o Marcelinho VP em sua própria casa, durante um período mais complicado de perseguição à sua fonte!



Os últimos Soldados da Guerra Fria

 

 

Autor: Fernando Morais

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Já na contracapa do livro, encontramos o seguinte texto:

“Organizações criminosas internacionais, aventuras mirabolantes, disfarces perfeitos, conquistas amorosas, agentes secretos em ações temerárias: este livro traz todos os elementos de suspense de um romance de espionagem — mas não contém uma só gota de ficção. É tudo verdade, nos mínimos e, eventualmente, aterradores detalhes.

A sensação de que lemos um romance vem não somente da história extraordinária, mas sobretudo da hábil narração do autor, que desvela, com maestria digna dos melhores ficcionistas e máximo compromisso jornalistico na apresentação dos fatos, uma trama transbordante de eventos jamais revelados pela imprensa.

A semelhança com James Bond, porém, não vai longe: há charme nem riqueza, mas a vida dura e pobre de homens que se dedicam à sua missão ante todo tipo de adverdidades. Uma história narrada com objetividade rigorosa, para ler de um fôlego.”

Aos leitores assíduos e apreciadores de tal gênero literário, essa introdução já não gera um comichão e uma crescente curiosidade para descobrir os segredos expostos no livro?

Pois bem… Ao menos foi assim que eu fiquei!

Sou suspeita para falar sobre Fernando Morais, o autor do livro, pois simplesmente adoro a escrita e os tipos de abordagem que o escritor elabora! No entanto, prometo não ser pretensiosa demais para o lado dele.

Os últimos soldados da Guerra Fria possui 396 páginas e sua primeira edição foi publicada pela editora Companhia das Letras em 2011, contudo, esses nãos são os dados mais importantes da obra! O sugestivo título já deixa entrever que se trata de dados, informações e suspeitas todos gerados dentro do clima conspiratório cheio de tramas e maquinação que a histórica Guerra Fria possuía.

Há espionagem e contra-espionagem, intrigas, história de vidas impressionantes, máscaras e desfechos mais do que surpreendentes. O amor e a amizade deveriam superar obstáculos, mas, nesse caso, o livro mostra que tudo é realizado para um objetivo maior! E qual seria esse?

O enredo é tecido envolvendo a Guerra Fria, porém a obra não retrata a já extinta União Soviética. O texto se enriquece com o sotaque espanhol e passa longe da frieza russa. A trama acontece entre dois países separados apenas por 130 km de água: E.U.A. e Cuba.

Recrutados para deter atentados terroristas orquestrados por dissidentes de Miami contra Havana, 14 cubanos passaram anos e anos infiltrados em organizações de extrema direita na Flórida.

E se você está com os filmes de 007 na cabeça, pode ir desfazendo essa imagem! Afinal, de nada tais cubanos têm do charmoso e letal agente britânico. Pelo contrário! Os 14 são paupérrimos e ganham a vida fazendo bicos em Little Havana, o bairro cubano de Miami. As condições do país se refletem na vida de seus agentes.

E coloco aqui uma citação que achei interessante, a respeito de como o autor teve a fantástica ideia de discorrer sobre tais espiões: “Se Truman Capote teve a ideia para A sangue frio ao ler uma nota de rodapé no New York TimesFernando Morais escutou no rádio, em 1998, a notícia que lhe renderia anos e anos de trabalho. O livro trata da prisão de cubanos nos Estados Unidos, acusados de espionagem. A acusação era verdadeira e a história por trás deste episódio, fantástica”.

As primeiras cem páginas do livro são contadas em alta voltagem, em reviravoltas à altura dos bons romances de Graham Greene, escritor que ficou mundialmente conhecido por seus romances que tiveram como tema ou pano de fundo a espionagem.

Assim como em um romance, o leitor vai montando as peças da história aos poucos, sem muita certeza de nada até que o quebra-cabeça vá ganhando forma e corpo. Mesmo se tratando de um relato histórico,  guiado pelos fatos, o livro consegue envolver o leitor no sentimento de uma aventura policial, carregada de espiões e mistérios (aos poucos solucionados e expostos).

Entre uma explosão e outra, um segredo e uma atividade de alto risco, Fernando Morais construiu um “trhiller político” que, como costumam dizer as orelhas de best-sellers, “prendem” o leitor.

A obra também reconstitui fatos importantes como as diversas crises migratórias sofridas por Cuba, os acordos com os E.U.A. para que cubanos deixassem a Ilha e o caso Elián, o garoto de sete anos que sobreviveu a um naufrágio quando ia, de bote, com sua mãe e outros cubanos para Miami. Outros personagens, como o Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez, que atuou como pombo correio de Fidel Castro e Bill Clinton, recheiam o enredo.

Fernando Morais, sem dúvida, é um caso raro na literatura brasileira! O escritor mineiro já fez três livros que de alguma maneira tem o socialismo como tema principal e “encoberto”. Ele é biógrafo do mais famoso e afamado escritor brasileiro de todos os tempos e seu próximo projeto é uma biografia de ACM, que em termos de detratores não fica muito atrás de Paulo Coelho (o tal escritor brasileiro).

O escritor, sempre que pode, costuma dizer que todos os seus livros poderiam ser publicados em um jornal diário, como “grandes reportagens”. E, de fato, isso é verdade!

O texto de Morais não é 100% jornalístico, ele é rigoroso na veracidade dos fatos e recheia suas tramas com informações e novidades, sempre elaborando um enredo com uma elaboração diferente e humanizada, que prende o leitor até o fim. Além disso, o seu faro de repórter pode ser considerado o “grande barato” do escritor.

Claro, Chatô era um personagem quase óbvio da nossa história. Assim como Olga Benario, que até então era uma nota de rodapé na biografia de Luis Carlos Prestes. E porque ninguém falou dos estranhos japoneses do interior de São Paulo que decapitavam seus compatriotas que admitiam a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial? … O fato é que Morais foi atrás e botou toda sua experiência de repórter a serviço de projetos que lhe consumiram muito tempo e trabalho.

Dessa forma, os temas polêmicos e que de alguma forma poderiam gerar opiniões maniqueístas, se diluem em textos bem apurados, bem escolhidos e bem escritos.  E o faro do jornalista escritor funcionou mais uma vez em Os últimos soldados da Guerra Fria.

Portanto, eu simplesmente recomendo essa obra incrível do Fernando Morais (assim como seus demais textos e livros). Com certeza, leitor algum irá se arrepender de ler tal trama!

 

 



et cetera
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